sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

David Chalmers, "Afinal o que é a ciência?" (Parte I)

Alan F. Chalmers escreveu What Is This Thing Called Science? (inicialmente publicado em 1976) quando não havia nenhuma introdução básica à história e filosofia da ciência. Ao ler este livro, escrito num estilo claro, rigoroso e despretencioso, qualquer estudante do ensino secundário pode obter uma compreensão consistente do que é a racionalidade científica. Não obstante, há algumas partes do livro que confundem mais do que esclarecem. Por exemplo, o capítulo relativo ao falsificacionismo de K. Popper.
No que às aulas de Filosofia diz respeito, é um texto excelente para discutir o indutivismo ingénuo. É por isso que começo hoje a publicar uma adaptação minha da tradução brasileira.


“Nos tempos modernos, a ciência é altamente considerada. Aparentemente há uma crença amplamente aceite de que há algo de especial a respeito da ciência e dos seus métodos. A atribuição do termo “científico” a alguma afirmação, linha de raciocínio ou peça de pesquisa é feita de um modo que pretende implicar algum tipo de mérito ou um tipo especial de confiabilidade. Mas o que é tão especial em relação á ciência? […]
Há abundância de provas na vida quotidiana de que a ciência é tida em alta conta, a despeito de um certo desencanto com ela, devido a consequências pelas quais alguns a consideram responsável, tais como bombas de hidrogéneo e poluição. Os anúncios asseguram com frequência que um produto específico foi cientificamente comprovado como sendo mais branqueador, mais potente, mais sexualmente atraente ou de alguma maneira preferível aos produtos concorrentes. Ao agir desta forma, esperam insinuar que a sua afirmação é particularmente bem fundamentada e talvez incontestável. […]
Conhecimento científico é conhecimento provado. As teorias científicas são derivadas de maneira rigorosa da obtenção dos dados da experiência adquiridos por observação e experimentação. A ciência baseada no que podemos ver, ouvir, tocar, etc. Opiniões ou preferências pessoais e suposições especulativas não têm lugar na ciência. A ciência é objectiva. O conhecimento científico é conhecimento confiável porque é conhecimento provado objectivamente.
Sugiro que afirmações semelhantes às anteriores resumam o que nos tempos modernos é uma concepção popular de conhecimento científico. Essa primeira visão tornou-se popular durante e em consequência da Revolução Científica que ocorreu sobretudo no séc. XVIII, levada a cabo por grandes cientistas pioneiros como Galileu e Newton. O filósofo Francis Bacon e muitos dos seus contemporâneos sintetizaram a atitude científica da época ao insistirem que, se quisermos compreender a natureza, devemos consultar a natureza e não os escritos de Aristóteles. As forças progressivas do século XVII chegaram a ver como um erro a preocupação dos filósofos naturais medievais com as obras dos antigos – especialmente Aristóteles – e também com a Bíblia, como as fontes do conhecimento científico. Estimulados pelos sucessos dos ”grandes experimentadores”, como Galileu, eles começaram cada vez mais a ver a experiência como fonte de conhecimento. Isto tem-se intensificado desde então pelas realizações espectaculares da ciência experimental.
[…]
A explicação indutivista ingénua da ciência (…) pode ser vista como uma tentativa de formalizar essa imagem popular da ciência. Chamei-a de indutivista porque se baseia no raciocínio indutivo (…).
[…]
De acordo com o indutivista ingénuo, a ciência começa com a observação. O observador científico deve ter órgãos sensitivos normais e inalterados e deve registar fielmente o que puder ver, ouvir etc, em relação ao que está a observar, e deve fazê-Io sem preconceitos. Afirmações a respeito do estado do mundo, ou de alguma parte dele, podem ser justificadas ou estabelecidas como verdadeiras de maneira directa pelo uso dos sentidos do observador não-preconceituoso. As afirmações a que se chega (vou chamá-Ias de proposições de observação) formam então a base a partir da qual as leis e teorias que constituem o conhecimento científico devem ser derivadas. Eis aqui alguns exemplos de proposições de observações não muito estimulantes:

À meia-noite de 1 de Janeiro de 1975, Marte apareceu em tal e tal posição no céu.
Essa vara, parcialmente imersa na água, parece dobrada.
O Sr. Smith bateu na sua esposa.
O papel de tornasol ficou vermelho ao ser imerso no líquido.

A verdade de tais afirmações deve ser estabelecida com cuidadosa observação. Qualquer observador pode estabelecer ou conferir a sua verdade pelo uso directo dos seus sentidos. Os observadores podem ver por si mesmos.
Afirmações desse tipo caem na classe das chamadas afirmações singulares. As afirmações singulares, diferentemente de uma segunda classe de afirmações que vamos considerar em seguida, referem-se a uma ocorrência específica ou a um estado de coisas num lugar específico, num tempo específico. A primeira afirmação diz respeito a uma aparição específica de Marte num lugar específico no céu num tempo determinado, a segunda diz respeito a uma observação específica de uma vara específica, e assim por diante. E claro que todas as proposições de observação serão afirmações singulares. Elas resultam do uso que um observador faz de seus sentidos num lugar e tempo específicos.
Vejamos alguns exemplos simples que podem ser parte do conhecimento científico:

Da astronomia: Os planetas movem-se em elipses em torno do seu Sol.
Da física: Quando um raio de luz passa de um meio para outro, muda de direcção de tal forma que o seno do ângulo de incidência dividido pelo seno do ângulo de refracção é uma característica constante do par em média.
Da psicologia: Em geral, os animais têm uma necessidade inerente de algum tipo de liberdade agressiva.
Da química: Os ácidos fazem o tornasol ficar vermelho.

São informações gerais que afirmam coisas sobre as propriedades ou comportamento de algum aspecto do universo. Diferentemente das afirmações singulares, elas referem-se a todos os eventos de um tipo específico em todos os lugares e em todos os tempos. Todos os planetas, onde quer que estejam situados, sempre se movem em elipses em tomo do seu Sol. Quando a refracção ocorre é sempre de acordo com a lei da refracção. As leis e teorias que constituem o conhecimento científico fazem todas afirmações gerais desse tipo, e tais afirmações são denominadas afirmações universais.
A questão seguinte pode agora ser colocada. Se a ciência é baseada na experiência, então por que meios é possível extrair das afirmações singulares, que resultam da observação, as afirmações universais, que constituem o conhecimento científico? Como podem as próprias afirmações gerais, irrestritas, que constituem as nossas teorias, serem justificadas na base de evidência limitada, contendo um número limitado de proposições de observação?
A resposta indutivista é que, desde que certas condições sejam satisfeitas, é legítimo generalizar a partir de uma lista finita de proposições de observação singulares para uma lei universal. Por exemplo, pode ser legítimo generalizar a partir de uma lista finita de proposições de observação referentes ao papel tornasol tomar-se vermelho quando imerso em ácido para a lei universal "os ácidos tomam o papel tornasol vermelho"; ou generalizar a partir de uma lista de observações referentes a metais aquecidos para a lei "os metais expandem-se quando aquecidos". As condições que devem ser satisfeitas para que tais generalizações sejam consideradas legítimas pelo indutivista podem ser assim enumeradas:
1. o número de proposições de observação que forma a base de uma generalização deve ser grande;
2. as observações devem ser repetidas sob uma ampla variedade de condições;
3. nenhuma proposição de observação deve conflituar com a lei universal derivada.
A condição (1) é vista como necessária porque é claramente ilegítimo concluir que todos os metais se expandem quando aquecidos baseando-se apenas numa observação de uma barra de metal em expansão, digamos, da mesma forma que não é legítimo concluir que todos os australianos são bêbados com base na observação de um australiano embriagado. Será necessário um grande número de observações independentes antes que uma generalização possa ser justificada. O indutivista insiste em que não devemos tirar conclusões apressadas.
Uma maneira de aumentar o número de observações nos exemplos mencionados seria aquecer repetidamente uma única barra de metal, ou continuamente observar um homem australiano embriagar-se noite após noite, e talvez manhã após manhã. Obviamente, uma lista de proposições de observação adquirida de tal maneira formaria uma base muito insatisfatória para as respectivas generalizações. É por isso que a condição (2) é necessária. "Todos os metais expandem-se quando aquecidos" será uma generalização legítima apenas se as observações de expansão nas quais é baseada se estenderem sobre uma ampla variedade de condições. Vários tipos de metais devem ser aquecidos, barras de aço longas, barras de aço curtas, barras de prata, barras de cobre etc. devem ser aquecidas à baixa e à alta pressão, altas e baixas temperaturas, e assim por diante. Se, em todas essas ocasiões, todas as amostras aquecidas de metal se expandirem, então, e somente então, é legítimo generalizar, a partir de uma lista resultante de proposições de observação para a lei geral. Além disso, é evidente que, se uma amostra específica de metal não for observada a expandir-se quando aquecida, a generalização universal não será justificada. A condição (3) é essencial.
O tipo de raciocínio que estamos a discutir, que nos leva de uma lista finita de afirmações singulares para a justificação de uma afirmação universal, levando-nos do particular para o todo, é denominado raciocínio indutivo, e o processo, denominado indução. Podemos resumir a posição indutivista ingénua dizendo que, de acordo com ela, a ciência é baseada no princípio de indução, que podemos assim descrever:

Se um grande número de As foi observado sob uma ampla variedade de condições, e se todos esses As observados possuíam sem excepção a propriedade B, então todos os As têm a propriedade B.

De acordo com o indutivista ingénuo, o corpo do conhecimento científico é construído pela indução a partir da base segura fornecida pela observação. Conforme cresce o número de dados estabelecidos pela observação e pela experimentação, e conforme os factos se tornam mais refinados e esotéricos devido a aperfeiçoamentos das nossas capacidades de observação e experimentação, cada vez mais leis e teorias de maior generalidade e escopo são construídas por raciocínio indutivo cuidadoso. O crescimento da ciência é contínuo, para a frente e para o alto, conforme o fundo de dados de observação aumenta.
A análise até aqui constitui apenas uma explicação parcial da ciência. Pois certamente uma característica importante da ciência é sua capacidade de explicar e prever. É o conhecimento científico que possibilita a um astrónomo prever quando vai ocorrer o próximo eclipse do sol ou a um físico explicar por que o ponto de ebulição da água é mais baixo que o normal em grandes altitudes.”
[…]
A explicação indutivista ingénua da ciência tem alguns méritos aparentes. A sua atracção parece residir no facto de que ela dá uma explicação formalizada de algumas das impressões popularmente mantidas a respeito do carácter da ciência, do seu poder de explicação e de previsão, da sua objectividade e da sua confiabilidade superior comparada com outras formas de conhecimento.
[…]
A objectividade da ciência indutivista resulta do facto de que tanto a observação como o raciocínio indutivo são eles mesmos objectivos. Proposições de observação podem ser averiguadas por qualquer observador pelo uso normal dos sentidos. Não é permitida a intrusão de nenhum elemento pessoal, subjectivo. A validade das proposições de observação, quando correctamente alcançada, não vai depender do gosto, da opinião, das esperanças ou expectativas do observador. O mesmo vale para o raciocínio indutivo por meio do qual o conhecimento científico é derivado a partir de proposições de observação. As induções satisfazem ou não as condições prescritas. Não é uma questão subjectiva de opinião.
A confiabilidade da ciência acompanha as afirmações do indutivista sobre a observação e a indução. As proposições de observação que formam a base da ciência são seguras e confiáveis porque a sua verdade pode ser averiguada pelo uso directo dos sentidos. Além disso, a confiabilidade das proposições de observação será transmitida às leis e teorias delas derivadas, desde que as condições para as induções legítimas estejam satisfeitas. Isso é garantido pelo princípio da indução que forma a base da ciência de acordo com o indutivista ingénuo.
[…]
Existem duas suposições importantes envolvidas na posição indutivista ingénua em relação à observação. Uma é que a ciência começa com a observação. A outra é que a observação produz uma base segura da qual o conhecimento pode ser derivado.
[…]
De acordo com a explicação indutivista da ciência, a base segura sobre a qual as leis e teorias que constituem a ciência se edificam é constituída de proposições de observação públicas e não de experiências subjectivas, privadas, de observadores individuais. Claramente, as observações feitas por Darwin durante a sua viagem no Beagle, por exemplo, teriam sido inconsequentes se tivessem permanecido experiências privadas de Darwin. Elas tornaram-se relevantes para a ciência apenas quando foram formuladas e comunicadas como proposições de observação possíveis de serem utilizadas e criticadas por outros cientistas. A explicação indutivista requer a derivação de afirmações universais a partir de afirmações singulares, por indução. O raciocínio indutivo, bem como o dedutivo, envolve relacionamento entre vários conjuntos de afirmações, e não relacionamento entre afirmações por um lado e experiências perceptivas por outro.
[…]
De acordo com o mais ingénuo dos indutivistas, a base do conhecimento científico é fornecido pelas observações feitas por um observador despreconceituoso e imparcial. Se for interpretada literalmente, esta posição é absurda e insustentável. Para ilustrar, imaginemos Heinrich Hertz, em 1888, a realizar o experimento eléctrico que lhe possibilitou produzir e detectar ondas de rádio pela primeira vez. Se ele devesse estar totalmente livre de preconceitos ao fazer as suas observações, então seria obrigado a registar não apenas as leituras nos vários medidores, a presença ou ausência de faíscas nos vários locais críticos nos circuitos eléctricos, as dimensões do circuito, etc., mas também a cor dos medidores, as dimensões do laboratório, a meteorologia, o tamanho dos sapatos e todo o elenco de detalhes “claramente irrelevantes”, isto é, irrelevantes para o tipo de teoria na qual Hertz estava interessado e que estava a testar. […]
[…] Observações e experimentações são realizadas no sentido de testar ou lançar luz sobre alguma teoria, e apenas aquelas observações consideradas relevantes devem ser registadas. Entretanto, na medida em que as teorias que constituem o nosso conhecimento científico são falíveis e incompletas, a orientação que elas oferecem, como, por exemplo, as observações relevantes para algum fenómeno sob investigação, podem ser enganosas, e podem resultar no descuido com alguns factores importantes. A experiência de Hertz antes mencionada fornece um bom exemplo. Um dos factores que mencionei como “claramente irrelevante” era na verdade bastante relevante. Era uma consequência da teoria que estava a ser testada que as ondas de rádio devessem ter uma velocidade igual à velocidade da luz. Quando Hertz mediu a velocidade das suas ondas de rádio, descobriu repetidas vezes que as suas velocidades eram significativamente diferentes da velocidade da luz. Ele nunca foi capaz de resolver o problema. Apenas depois da sua morte é que a origem do problema foi realmente compreendida. As ondas de rádio emitidas pelo seu aparelho estavam a ser reflectidas nas paredes do laboratório em redor do aparelho, interferindo com as suas medições. As dimensões do laboratório acabaram por se revelar bastante relevantes. As teorias falíveis e incompletas que constituem o conhecimento científico podem, portanto, dar uma orientação falsa a um observador. Mas este problema deve ser enfrentado pelo aperfeiçoamento e maior alcance das nossas teorias e não pelo registo interminável de uma lista de observações sem objectivo.”
Chalmers, A. F. (2000). O que é a ciência afinal? São Paulo: Brasiliense, pp. 17-60 (Adaptação de Vítor João Oliveira)

2 comentários:

José disse...

Existe algum outro capítulo confuso nesse livro do Chalmers? Quais são as suas principais falhas no capítulo em que ele expõe o falsificacionismo de Popper?

Maria Isilda disse...

Muito bem!Mas quando vi o nome do autor, não fiquei surpreendida porque sempre foi assim:do melhor!