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quarta-feira, 23 de julho de 2008

Usos do Argumento: Refutação

Argumentamos por vezes para refutar os argumentos dos outros. Refutar um argumento é mostrar que ele não é bom. Podemos refutar um argumento sem ser necessário provar que a sua conclusão é falsa. Podemos refutar um argumento fazendo uma de três coisas: (1) mostrar que a conclusão não é válida, quer dizer, não se segue das premissas; (2) mostrar que as premissas ou alguma(s) das premissa(s) são duvidosas ou mesmo falsas; e (3) ou mostrar que o argumento não se relaciona com a tese que quer provar.

Vejamos exemplos de três métodos de refutação:

a) Sabemos que um argumento não é válido se parte de premissas verdadeiras e conduz a uma conclusão falsa. Amiúde não podemos apontar este aspecto para refutar um argumento, pois a verdade ou falsidade da conclusão é exactamente o que está em questão. O que fazer? Recorrer a um mecanismo em que se utiliza o mesmo tipo de argumento permitindo chegar a uma conclusão insatisfatória. Exemplo:

João: Se tivesse um salário alto, então poderia comprar mais coisas; e se todos tivessem salários mais altos, então todos poderiam comprar mais coisas.
Rita: Isso é o mesmo que dizer que se uma pessoa se levantar num estádio, então verá melhor o jogo; e se todos se levantarem num estádio, então todos verão melhor o jogo.

À primeira vista não é óbvio que o argumento do João seja ou não válido. A resposta da Rita mostra que é inválido recorrendo a um argumento semelhante na forma, já que se todos se levantarem num estádio, apenas os mais altos verão melhor. Fica então claro porque é que o argumento do João é inválido: do mesmo modo que fica claro que ver melhor não decorre necessariamente de estar de pé, mas da altura de uma pessoa, também o poder de compra de uma pessoa é afectado pelo poder de compra dos outros, pois o aumento da procura tem efeitos na oferta. Portanto, podemos refutar um argumento através do mecanismo “É o mesmo que dizer…”.

b) A segunda forma de refutar um argumento é atacando uma das suas premissas. Podemos defender que não há uma boa razão para aceitar que uma dada premissa seja verdadeira perguntando por exemplo “Como sabes que é assim?”. Se não houver forma de justificar a premissa, então o argumento falha. Também podemos provar que a premissa é de facto falsa. Seja como for, refutamos o argumento refutando uma das suas premissas.

A forma habitual do o fazer é apresentando um contra-exemplo. Os contra-exemplos dirigem-se habitualmente a premissas universais. Uma premissa universal será falsa se encontrarmos pelo menos um caso que prove o contrário do que afirma. Se alguém defende que as cobras põe ovos, basta encontrar um tipo de cobra que não ponha ovos para provar que nem todas as cobras põe ovos. Como vês, o padrão de refutação neste caso é muito simples: refutar uma proposição que defende que todos os elementos de um conjunto possuem uma dada característica, basta mostrar que há pelo menos um exemplar desse conjunto que não a possui. Há quem defenda que a excepção serve apenas para confirmar a regra. Esquecem-se que no caso, confirmar significa testar e se a premissa universal falha o teste da confirmação, então será falsa.

c) Os contra-exemplos servem para refutar proposições universais. Então como podemos refutar proposições que não são universais? Mostrando que uma dada proposição tem implicações ridículas ou absurdas. Este modo de refutação designa-se por reductio ad absurdum (redução ao absurdo). Este método não mostra exactamente o que está errado na proposição, mas que algo está errado com a proposição. Na maioria das vezes isto é suficiente para refutar um argumento. Por exemplo, supõe que alguém defende que existe uma montanha que é a mais alta de todas, que existe um ser humano que é o mais maléfico de todos, pelo que deve haver igualmente um número inteiro que é o maior de todos. Supõe que existe o número inteiro maior. Designe-se de N. Uma vez que N é um número inteiro, então N+1 também é um número inteiro. Podes concluir que N+1 será maior do que N. Mas é absurdo que o maior número inteiro seja maior que o maior dos números inteiros. Logo, a suposição de que existe um número inteiro que é o maior de todos é falsa.

A redução ao absurdo tenta mostrar que determinada proposição, X, é falsa porque implica uma outra proposição, Y, que é absurda. A forma deste argumento é a seguinte: Se X, então Y. Se X, então não Y. Logo, não X.

Para avaliar uma redução ao absurdo, tem que se colocar três questões:
(1) X implica de facto Y?
(2) É realmente absurdo?
(3) Podemos modificar X de uma forma que deixe de implicar Y?
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domingo, 18 de maio de 2008

James Benjamim, "Elementos da Retórica Aristotélica"

«Considera Aristóteles (384-322 d.C.), em primeiro lugar, que a verdade só pode sobressair em condições de igualdade e que apenas a retórica pode assegurar às partes em disputa hipóteses iguais. Em segundo lugar, que apenas a retórica pode ensinar as pessoas que não estão treinadas os complexos silogismos e a dialéctica platónica. Por outras palavras, a retórica pode ser usada para popularizar questões importantes. Em terceiro lugar, sugere que a retórica é valiosa mas não por julgar um caso – é uma arte que pode ser usada pelas duas partes em disputa. Finalmente, defende que à retórica é importante para alguém se defender de ataques. A arte da auto-defesa verbal era tão necessária na Grécia Antiga como o é nos nossos dias.

Para Aristóteles a retórica é “a arte de descobrir, em qualquer caso, os meios adequados de persuasão”. Na sua opinião, existem dois tipos de prova. Uma prova não artística, criada para suportar uma posição que não era criada pela arte da retórica. Uma prova não artística incluía aspectos como a evidência física. Por exemplo, as manchas de sangue na cena do crime são evidências persuasivas, mas não são artísticas por não serem criadas pela arte da retórica.

Um segundo tipo de prova é a artística. Esta pode ser de três tipos: baseada no carácter da fonte (ethos), nas emoções da audiência (pathos) e na lógica do caso (logos). Deve-se recordar que o termo grego logos pode ser traduzido como “a palavra” tal como é usado no Górgias, mas também pode significar a lógica do caso como é exemplo o uso que Aristóteles faz do termo.

De acordo com Aristóteles, “os modos de persuasão decorrentes da palavra falada são de três tipos”. O primeiro depende do carácter do orador; o segundo depende de colocar a audiência num determinado estado mental; o terceiro depende da prova, ou da prova aparente, fornecida pelo próprio discurso. A persuasão é alcançada pelo próprio carácter do orador quando o discurso é realizado para fazer a audiência acreditar que ele é credível. Acreditamos mais facilmente e mais fortemente nos homens bons do que nos outros; esta é uma verdade geral, independente da questão a provar, e é absolutamente verdadeira quando não é possível uma certeza exacta ou quando as opiniões estão divididas. Este tipo de persuasão, tal como outras, deve ser alcançada pelo que o orador diz, não pelo que as pessoas pensam do carácter do orador antes de começar a discursar. Mas não é verdade, como assumem alguns nos seus tratados de retórica, que a bondade pessoal revelada pelo orador em nada contribui para o seu poder de persuasão; pelo contrário, o seu carácter pode quase ser chamado como o mais eficaz meio de persuasão de que dispõe.

A visão de Artistóteles do ethos (…) [permite concluir] que a percepção do carácter da fonte da persuasão influencia claramente as respostas da audiência à sua mensagem. Por outras palavras, o persuasor deve aparecer à audiência como especialista, confiável e amigável.

Aristóteles dedicou imenso tempo à análise detalhada da questão do pathos ou da prova emocional. Fúria, brandura, amor e amizade, ódio, medo, confiança, vergonha, descaramento, benevolência, piedade, indignação, inveja, rivalidade e contentamento receberam uma atenção concreta. Também sugeriu que as audiências podem ser consideradas de acordo com grupos etários. Por exemplo, sugeriu que os mais jovens têm desejos fortes, são confiáveis, preferem a honra ao expediente, e possuem aspirações elevadas. As pessoas mais maduras, em contraste, tentam aderir tanto à honra como ao expediente, não são nem excessivamente confiantes nem demasiado tímidas, e valorizam a poupança nos seus desempenhos. Aristóteles acreditava claramente que a persuasão é mais do que apresentar um discurso lógico; também envolve invocar as emoções da audiência.

O terceiro elemento aristotélico, logos, é uma extensão e adaptação dos seus escritos de lógica. (…) Nesta síntese, devemos notar que Aristóteles sugeriu que existem dois tipos lógicos de raciocínio retórico. Um é o entimema, uma forma retórica de raciocínio dedutivo no qual se pede à audiência que aceite inicialmente uma generalização e que retire depois uma conclusão sobre uma instância concreta. O segundo tipo é o raciocínio através de exemplos, uma forma retórica de raciocínio indutivo no qual a audiência deve ser questionada para iniciar com um caso específico e derivar uma generalização a partir dele. Por exemplo, uma audiência pode ser desafiada para inferir que um programa de bem-estar bem sucedido em New York, San Antonio, Mineápolis e Los Angeles deve igualmente funcionar em Detroit, ou pode-se pedir que conclua que é razoável esperar que um programa de vigilância que reduziu a criminalidade num bairro de Brooklyn possa permitir reduzir a criminalidade numa qualquer área metropolitana.

Raciocinar por entimema é uma adaptação retórica do silogismo categórico, o método formal de alcançar conclusões baseado na dedução. No silogismo inicia-se com uma generalização designada de premissa maior. Existe depois uma instância específica designada de premissa menor. Se o nosso raciocínio segue as regras do silogismo válido, podemos inferir uma conclusão baseada nas premissas maior e menor. Por exemplo, podemos defender que uma grande empresa explora os seus trabalhadores (premissa maior) e que a Megacorp é uma grande empresa (premissa menor). Por isso, a Megacorp explora os seus trabalhadores (conclusão). Um entimema, uma forma de raciocínio silogístico, é uma forma abreviada de silogismo no qual se espera que a audiência preencha os elementos suprimidos do argumento. Por outras palavras, em vez de enunciar o silogismo, espera-se que a audiência diga algo semelhante a “devemos controlar as grandes empresas, por isso devemos controlar a Megacorp”. Ao apresentar o entimema, espera-se que a audiência participe no raciocínio “preenchendo as lacunas” que o entimema deixa de fora do silogismo cabalmente realizado.

[…] No raciocínio através de exemplos. Aristóteles desenvolveu uma forma de raciocínio indutivo. Neste tipo de raciocínio, consideram-se uma série de elementos específicos a partir dos quais se infere uma generalização. Isto envolve realizar um “salto indutivo” que implica que o que é verdadeiro para um conjunto de elementos sê-lo-á também para outro conjunto de elementos similar não analisado. Por exemplo, no estudo paleontológico dos fósseis, verifica-se um debate sobre se certos dinossauros são antepassados dos pássaros ou dos répteis. Aqueles que são a favor da tese que os dinossauros são os antepassados dos pássaros defendem que os ossos ocos, a enorme densidade de vasos sanguíneos fossilizados e outros elementos, são características genéricas de animais de sangue quente como é o caso das aves mais do que de animais de sangue frio como é o caso dos répteis. Os persuasores usam com frequência exemplos para generalizar a partir de situações concretas.

[…] Na opinião de Aristóteles, o argumento através de exemplos é uma técnica de persuasão particularmente útil, porque fornece um carácter de especificidade ao processo – “têm o efeito de testemunha da evidência, e isto conta sempre.»

Benjamim, J. (1997). Principles, Elements and Types of Persuasion. Orlando: Harcourt Brace & Company, pp- 42-5 (Traduzido e adaptado por Vítor João Oliveira)

terça-feira, 11 de março de 2008

A. P. Martinich, "Estrutura de um Ensaio Filosófico"

«1. Esboço da estrutura de um ensaio filosófico
Sócrates não era amigo daquilo que entendia por retórica. Ainda assim, dispunha-se a conceder que "Todo discurso deve ser construído como uma criatura viva, dotado por assim dizer do seu próprio corpo; não lhe podem faltar nem pés nem cabeça; tem de dispor de um meio e de extremidades compostas de modo tal que sejam compatíveis uns com os outros e com a obra como um todo" (Fedro, 264C). Estendendo o alcance da metáfora, dir-se-á que assim como as partes do corpo têm diferentes formas e funções — braços, pernas, asas e chifres —, também as têm as partes do ensaio. Além disso, se diferentes animais exibem diferentes anatomias, o mesmo sucede com os ensaios filosóficos: alguns são mais complexos e invulgares do que outros. Todos, contudo, evoluem a partir de uma forma básica.
Neste livro, discute-se a forma mais básica do ensaio e os seus descendentes imediatos na escala da evolução. Todas essas formas têm cabeça, tronco e cauda. Em termos prosaicos, todo ensaio deve apresentar três partes: começo, meio e fim. Foi Winston Churchill, creio eu, quem o disse da seguinte maneira: diga o que vai fazer, faça-o, diga o que fez. Talvez já tenhas ouvido isso, e por uma boa razão: trata-se de uma verdade. Além disso, como um primeiro critério de especificação da estrutura de um ensaio, é uma valiosa observação. Mas esse truísmo seria objectável se não se dissesse nada mais sobre o que entra na estrutura do ensaio e como o autor pode construir uma. Faz-se necessário um guia mais informativo (vê em baixo) sobre a redacção do ensaio.
No guia mais informativo, o primeiro elemento, "diz o que vais fazer", e o terceiro, "diz o que fizeste", não sofrem modificações substanciais. Eles aparecem a seguir como segmentos I e V, respectivamente. O segundo elemento, "fá-lo", no entanto, divide-se em três segmentos, II, III e IV.

A estrutura de um ensaio filosófico (forma simples):
I — Apresenta a proposição a demonstrar.
II — Apresenta o argumento a favor da proposição.
III — Demonstra que o argumento é válido.
IV — Demonstra que as premissas são verdadeiras.
V — Retoma de modo conclusivo o que foi provado.


O segmento I, "Apresenta a proposição a demonstrar", é o começo do ensaio. A proposição a demonstrar costuma receber o nome de "frase de tese" ou, mais simplesmente, "tese". A tese tem de ser um enunciado como "A justiça é atribuir a cada pessoa aquilo que lhe é devido", assim como pode ter carácter histórico: "A dúvida metódica de Descartes é equivalente ao cepticismo de Sexto Empírico".
Aristóteles disse: "Um discurso tem duas partes: temos de apresentar nossa tese e temos de a demonstrar". Embora um ensaio não seja propriamente um discurso escrito, aquilo que Aristóteles diz sobre este último pode aplicar-se ao ensaio. A divisão mais básica de um ensaio é a apresentação da tese e a demonstração dessa tese. A afirmação da tese vem antes da demonstração. Se começares o ensaio com a primeira premissa, em vez de começar com a apresentação de tua tese, o leitor terá grandes dificuldades para compreender a relevância da premissa. Um dos motivos disso é que de uma proposição segue-se um número infinito de proposições. (É fácil, porém irrelevante aqui, demonstrar isso. Qualquer pessoa que tenha feito um curso de lógica deverá ser capaz de fazê-lo. Quem não fez esse curso pode pedir ao professor, num dia chuvoso, que o faça.) Embora virtualmente todas as proposições infinitas possíveis tenham uma probabilidade absurdamente baixa de ser usadas pelo autor, ainda haverá com frequência um número relativamente grande de proposições com uma probabilidade relativamente alta de ser escolhidas; é injusto e irracional que o autor espere que o leitor antecipe quais dessas poderá usar.
Compara escrever um ensaio com dirigir um veículo. Se o passageiro não souber o destino, vai ser-lhe difícil lembrar-se das ruas por onde passou. Se, por outro lado, o destino for conhecido, toda a curva à esquerda e à direita, toda a placa ou sinal de trânsito serão registados com relação a esse destino. Como a filosofia pode ser difícil, é importante dizer com toda a clareza possível o que estás a tentar demonstrar no teu ensaio. Não deve haver surpresas na filosofia, excepto as causadas por uma descoberta expressa com uma clareza brilhante. Não confundas pirotecnia retórica com luz filosófica.
Claro que o teu principal objectivo, ao escrever um ensaio filosófico, é a Verdade pela Verdade (Veritas gratia Veritatis). Outro propósito pode ser, no entanto, mostrar ao teu professor que conheces o assunto. Antes de ler o teu ensaio, o professor não vai supor nem que conheces nem que não conheces o assunto; mas, quando começar a ler, o ónus de provar que conheces o assunto é todo teu. Um ensaio sem clareza é indício de um pensamento sem clareza.
Os segmentos II, III e IV constituem o meio do ensaio. Quanto ao segmento II, é boa prática apresentar o mais cedo possível todas as tuas premissas. Isso dá ao leitor a oportunidade de ver a estrutura geral do teu argumento. O leitor tem a hipótese de conhecer a aparência geral da maneira como vais proceder para provar a tua tese. Então, no segmento III, mostra que o teu argumento é válido, isto é, que as premissas estabelecidas conduzem de facto à conclusão. Explica de que maneira as suas premissas implicam a sua conclusão. Como um argumento válido só garante uma conclusão verdadeira se todas as premissas forem verdadeiras, o próximo passo do teu ensaio (segmento IV) é provar que as tuas premissas são verdadeiras. Apresenta em primeiro lugar os indícios a favor das tuas premissas. Essa é a maneira mais directa e patente de defender a tua tese. Tipicamente, o público mostrar-se-á dúbio com relação a uma ou mais das tuas premissas. Levantar as objecções que antecipas que o leitor poderá fazer ajuda a desanuviar a atmosfera, sobretudo se puderes responder a essas objecções. Além disso, a resposta a objecções reforça a tua defesa e torna-a mais imperiosa quanto à sua aceitação por parte do leitor.
O segmento V é o fim do teu ensaio. Há várias maneiras de terminar um ensaio. Uma delas é resumir o teu argumento. Isso segue a ideia de "diz o que fizeste". Como vem no final da tua explicação cuidadosa, o teu resumo pode supor muitas coisas. Podes usar termos técnicos livremente e supor que o sentido de todas as tuas proposições é claro. Outra maneira de terminares o ensaio é explicar que outra ou outras implicações ele tem ou dizer qual é o próximo passo da tua investigação. Esta última conclusão não é adequada quando se está a apresentar a monografia final de uma disciplina ou curso.
Outra maneira de terminar o ensaio é explicar por que razão os resultados obtidos são importantes, caso a sua importância não tenha podido ser explicada pela tua apresentação em algum segmento anterior do ensaio. Tipicamente, é bom explicar a importância dos resultados perto do começo do ensaio, a fim de despertar o interesse do leitor. Mas às vezes não é possível avaliar essa importância antes de se percorrer todo o argumento; ou a relação entre os resultados e a importância que têm é implausível sem o argumento. Nesses casos, é tanto justificável como aconselhável explicar a importância dos resultados no final.
Descrevi em linhas gerais a estrutura mais simples que um ensaio filosófico pode ter. Tipicamente, essa estrutura é bem mais complexa. A fim de te ajudar a reflectir sobre essa complexidade, vamos examinar um esboço bem mais complicado da estrutura de um ensaio filosófico. Vê as páginas seguintes.
O esboço é, em larga medida, auto-explicativo. Ainda assim, é necessário dizer outras coisas sobre ele, visto que se trata de uma entidade abstracta e esquemática. Em primeiro lugar, nem todo o ensaio conterá todos os elementos do esboço. Em segundo, nem todos conterão esses elementos na ordem aqui apresentada. Essa ordem, embora padrão, não deve ser considerada invariável; o teu material deve ditar a ordem. Em terceiro lugar, alguns itens do esboço são mais ou menos os mesmos, como, por exemplo, I(a)(2) e I(b)(1). Uma das razões disso é que, de um modo geral, os ensaios desenvolvem um passo de cada vez. É muitas vezes retoricamente mais eficaz seguir este procedimento: indicar as bases gerais, apresentar a tua posição, fornecer bases mais específicas e assim por diante. Outro motivo de o mesmo tópico geral ser referenciado em mais de um lugar no esboço depende, mais uma vez, do facto de o teu material dever ditar a ordem, o que em alguns casos significa discutir o tópico num dado lugar e noutros casos, noutro lugar. Por fim, partes desse esboço — e mesmo todo ele — podem ser incorporadas como elementos de outras partes do esboço. Por exemplo, no começo do ensaio, no curso da explicação daquilo que outros filósofos pensaram sobre o teu problema, podes querer introduzir o argumento que outro filósofo qualquer apresenta em favor da sua posição, ou seja, podes querer introduzir os segmentos II, III e IV do "Esboço" como elemento subordinado a I(a)(2). Se fizeres isso, o esboço da primeira parte do teu ensaio conterá elementos encaixados. (Ver caixa ilustrativa.)
A estrutura de um ensaio filosófico (Forma um pouco mais complexa):
I — Começo: apresenta a proposição a demonstrar.
a) Orientação
1) Especifica o tópico geral a ser discutido.
2) Relata o que outros filósofos pensaram sobre o tópico.
b) Apresenta o que vai ser provado; apresenta a tese.
1) Diz quem teve a mesma opinião ou um ponto de vista semelhante.
2) Diz quem teve uma opinião oposta ou um ponto de vista diferente.
c) Motivação: explica por que essa tese ou tópico é interessante ou importante,
d) Diz o que vais pressupor no teu ensaio sem discussão.
II — Apresenta o argumento em favor da proposição a ser provada.
a) Explica a força geral do argumento.
b) Explica o que as premissas significam.
III — Demonstra que o argumento é válido.
a) Explica os termos usados em sentido técnico ou que são ambíguos; resolve a ambiguidade.
b) Explica de que maneira a conclusão é consequência das premissas.
1) A inferência que leva a conclusões intermediárias terá de ser explicada como parte da explicação como um todo.
2) Às vezes é possível explicar as inferências citando regras de um sistema natural de dedução, como, por exemplo, modus ponens ou modus tollens. O mais comum é que a explicação se volte para esclarecer as relações conceptuais entre os conceitos expressos nas premissas.
c) Apresenta as regras que justificam as inferências não aparentes feitas a partir do enunciado inicial do argumento.
IV — Demonstra que as premissas são verdadeiras.
a) Fornece os indícios a favor das premissas.
1) Explica as premissas, bem como o significado de termos que podem ser entendidos erradamente e, assim, prejudicar a verdade das tuas premissas.
2) Aduz as intuições do público; dá exemplos e apresenta argumentos subsidiários que apoiem a verdade das tuas premissas.
b) Levanta objecções.
1) Apresenta objecções que tenham sido efectivamente levantadas à tua posição.
i) Apresenta as objecções que filósofos historicamente significativos tenham levantado com relação ao teu problema;
ii) Apresenta as objecções levantadas pelo teu professor e pelos teus colegas;
2) Levanta objecções que ninguém tenha levantado e que, uma vez respondidas, explicitem e tornem mais clara a tua tese.
c) Responde às objecções.
V — Conclusão
a) Retoma de modo conclusivo o que foi provado.
b) Indica outros resultados que se podem querer obter.

A estrutura de um ensaio filosófico (Com uma estrutura encaixada):
I — Começo: apresenta a proposição a demonstrar.
a) Orientação
1) Especifica o tópico geral a ser discutido.
2) Relata o que outros filósofos pensaram sobre o tópico.
II — Apresenta o argumento em favor da proposição a demonstrar.
III — Demonstra que o argumento é válido.

a) Explica os termos usados em sentido técnico ou que são ambíguos; resolve a ambiguidade.
b) Apresenta as regras que justificam as inferências não aparentes feitas a partir do enunciado inicial do teu argumento.
IV — Demonstra que as premissas são verdadeiras.
b) Apresenta o que vai ser provado; apresenta a tese.
1) Diz quem teve a mesma opinião ou um ponto de vista semelhante.
2) Diz quem teve opinião oposta ou um ponto de vista diferente.
c) Motivação: explica por que essa tese ou tópico é interessante ou importante.
II — Apresenta o argumento em favor da proposição a demonstrar.
III — Demonstra que o argumento é válido.
IV — Demonstra que as premissas são verdadeiras.
V — Conclusão


2. Anatomia de um ensaio
Reproduzimos a seguir um exemplo da teoria moral de Hobbes segundo a ordem que ilustra a maioria dos itens da estrutura de um ensaio filosófico discutida na secção anterior. As passagens foram numeradas (de [1] a [22]) para posterior referência ao já adiantado sobre a estrutura texto do ensaio. Para melhores resultados no uso dos comentários, faz uma leitura prévia e rápida de todo o ensaio (é bastante curto). Depois, volta ao começo e lê cada item numerado e a nota que lhe corresponde.

[1] A Teoria Moral de Hobbes Segundo a Ordem Divina
[2] O problema central da filosofia moral de Thomas Hobbes é responder à seguinte questão: "Por que razão estão os seres humanos obrigados a seguir as leis morais?" [3] Há duas maneiras essenciais de interpretar a resposta de Hobbes a essa pergunta. [4] A primeira é a de que os seres humanos têm de obedecer à lei moral porque Deus lhes ordena que obedeçam. [5] Essa interpretação é de modo geral conhecida como Tese de Taylor-Warrender. [6] A outra interpretação diz que os seres humanos devem obedecer às leis morais porque essas leis são racionais, no sentido em que são dedutíveis pela razão. [7] Podemos denominá-la Tese Secular.
[8] Neste ensaio, apresento uma interpretação que é uma versão da Tese de Taylor-Warrender. [9] Segundo essa tese, para Hobbes, uma acção é moral quando Deus a ordena. [10] A minha interpretação, porém, incorpora igualmente o principal elemento da Tese Secular, visto que aquilo que Deus ordena é dedutível pela razão.
[11] Hobbes afirma com frequência que as leis morais, por ele identificadas com os ditames da razão, são leis divinas (Leviatã, org. por C. B. Macpherson, Penguin, 1962, c. 31, p. 399). Ele afirma ainda que "A Palavra de Deus deve, pois, ser levada igualmente em consideração no tocante aos Ditames da razão e da equidade" (Leviatã, p. 456; ver também De Cive, 4.1). A partir das muitas passagens que podem ser citadas, fica claro que é genuína a adesão de Hobbes a essa doutrina; ele não a enunciou casualmente nem o fez com reservas.
[12] A concepção segundo a qual se deve obedecer às leis morais por serem elas ordenadas por Deus, pode igualmente ser demonstrada por recurso a um argumento que Hobbes não poderia deixar de aceitar. As leis morais são leis. Todas as leis requerem um legislador. Não há outro legislador da lei moral além de Deus. Logo, Deus é o legislador da lei moral. [13] Uma objecção à minha tese é que Hobbes não recorre a Deus ao deduzir as leis morais. [14] Com respeito a essa objecção, afirmo não ser necessário que Hobbes mencione Deus na dedução das leis morais. [15] O primeiro passo para compreender por que isso é verdade consiste em distinguir entre a forma e o conteúdo da lei. [16] Para Hobbes, como para todos os teorizadores que recorrem à ordem divina ao tratar da obediência às leis morais, toda a lei tem duas partes: há o seu conteúdo, que exprime o que se tem de fazer, e a sua forma, expressão da autoridade que obriga a fazer o que se tem de fazer. [17] Por exemplo, a frase "Ordeno que todos os que tomarem algo em empréstimo devolvam o objecto em questão no mesmo estado em que se encontrava quando do empréstimo" é usada apropriadamente para exprimir uma lei quando enunciada por um soberano, [18] e é divisível em duas partes. [19] A expressão "ordeno" exprime a forma da lei ou, como diz Hobbes, "O estilo de uma Lei é Ordenamos" (Leviatã, p. 588; ver também p. 317). [20] O resto da frase exprime o seu conteúdo.
[21] Embora a forma das leis morais seja imediatamente clara (eu, Deus, ordeno), o seu conteúdo não o é, porque os seres humanos não têm acesso directo a Deus, visto ser Ele invisível bem como propenso a ser percebido de outras maneiras. Não obstante, há certos conhecimentos que os seres humanos têm a respeito de Deus, como o de ser racional. Além disso, as leis têm de ser racionais; é impossível haver uma lei irracional ou contraditória. Ora, como tudo o que é racional é dedutível pela razão, o conteúdo da lei moral também o é.
[22] Conclui-se, assim, que o conteúdo da lei moral é dedutível pela razão, porém não a partir de nosso conhecimento da natureza de Deus; e a ordem de Deus é o que torna esse conteúdo uma lei e, por conseguinte, de obediência obrigatória.

Notas:
[1] O título é uma parte extremamente importante do ensaio porque, se formulado com habilidade, ajuda a compor as duas partes mais importantes do início de um ensaio. Como é sempre a primeira coisa que o leitor vê, antes mesmo do nome do autor, o título cria a primeira impressão. O título deve veicular uma gama restrita de tópicos a partir dos quais é seleccionado o tópico principal. O título "A Teoria Moral de Hobbes Segundo a Ordem Divina" indica, evidentemente, que o principal tópico da discussão não incluirá elefantes nem eras geológicas, restringindo o tópico à intersecção de tópicos sobre Hobbes e a teoria moral segundo a ordem divina. Claro que a compreensão do título depende em larga medida do grau de informação do público. O título é mais informativo para alguém que saiba quem é Hobbes e o que é a teoria moral segundo a ordem divina.
[2] A primeira frase deve fazer a transição entre o carácter abstracto e esquemático do título e o carácter concreto e específico do ensaio. A transição é muito suave neste ensaio, visto que a expressão "filosofia moral de Thomas Hobbes", na primeira frase, faz eco a duas das palavras contidas no titulo. O item [2] satisfaz I(a)(i): Especifica o tópico geral a ser discutido. (A diferença entre I(a)(i), I(b)(i) e 1(b)(2) reside apenas na relação que as frases têm com outras partes do ensaio.) I(a)(i) é um relato da história do problema que não vincula esta história com a tese do autor; I(b)(i) e 1(b)(2) relatam essa história na sua relação com essa tese.
[3] Esta frase introduz 1(a)(2): Relata o que outros filósofos pensaram sobre o tópico.
O item [3] é, por outro lado, proléptico, isto é, ele exprime de maneira geral algo que precisa ser relatado em detalhes. As frases prolépticas assemelham-se a promessas implícitas relativamente a falar mais sobre o tópico. Essas promessas devem ser cumpridas assim que for possível. No nosso caso, a promessa é cumprida nas frases seguintes: [4] a [7].
[4] Esta frase é a primeira parte da explicação do que foi dito em [3].
[5] Esta frase dá o nome da interpretação a que se fez referência em [4]. Seria apropriado introduzir aqui uma nota com referências ao trabalho académico de Taylor, de Warrender e de qualquer outro estudioso que o autor julgue que fornece fundamentos relevantes sobre o assunto. Essa nota não aparece aqui por razões de simplicidade.
O item [5] também marca o lugar no qual se poderia incluir uma discussão do trabalho de Taylor e de Warrender, caso o autor desejasse ampliar o ensaio. Por exemplo, a frase [5] poderia ser facilmente transformada em três:
[5] Essa interpretação é, de um modo geral, conhecida como Tese de Taylor-Warrender. [5a] A. E. Taylor apresentou pela primeira vez a tese com as seguintes palavras: "Só posso tornar consistentes entre si os enunciados de Hobbes supondo que ele considerava com toda a seriedade aquilo que diz com tanta frequência: que a «lei natural» é a ordem de Deus, devendo, pois, ser obedecida por ser ordem de Deus" (A. E. Taylor, "The Ethical Doctrine of Hobbes", in Hobbes Studies, org. por Stuart Brown, Oxford, Basil Blackwell, 1965, p. 49). [5b] Howard Warrender elaborou mais tarde uma variante da tese nos seguintes termos: "[De acordo com Hobbes], a razão pela qual devo cumprir o meu dever é que Deus me ordena que o faça" (The Political Philosophy of Hobbes, Oxford, Clarendon Press, 1957, p. 213).
Estas três proposições ([5], [5a] e [5b]) poderiam ser expandidas em dez ou mais se isso fosse necessário ou desejado, de preferência descrevendo, em vez de citar, as suas ideias.
A citação ou outras indicações do pensamento de outros estudiosos sobre uma questão filosófica oferece bases ao leitor ideal e indícios ao teu professor de que investigaste e estás bem informado sobre o teu tópico. Há muitos outros pontos deste ensaio que podem ser expandidos de várias maneiras. Vê, por exemplo a nota, ao segmento [11].
[6] Esta e a próxima frase completam a discussão de I(a)(2). Vê a estrutura paralela de [4], que começa com "A primeira" e de [6], que começa com "A outra interpretação", Esse tipo de estrutura une diferentes frases e contribui para o que é chamado de "coerência" ou "coesão".
[7] Esta frase relaciona-se com [5]. Ela completa a discussão de 1(a)(2): "Relata o que outros filósofos pensaram sobre o tópico".
[8] Esta frase satisfaz 1(b): "Apresenta o que vai ser demonstrado; apresenta a tese".
[9] Esta frase satisfaz parcialmente 1(b). Ela dá uma explicação adicional à tese, repetindo ligeiramente as informações dadas em [6], mas a repetição é proveitosa se o autor julgar que o público pode não estar familiarizado com os estudos sobre Hobbes. A repetição evita que o leitor tenha de voltar para ver o que é a Tese Taylor-Warrender.
[10] Esta frase continua a satisfazer 1(b). Tal como [9], repete ligeiramente as informações dadas antes.
[11] As frases deste segmento satisfazem tanto II, "Apresenta o argumento a favor da proposição", como IV, "Demonstra que as premissas são verdadeiras". O argumento é tão breve e simples que as suas premissas nem sequer são dadas no ensaio. Uma consequência disso é que não há necessidade de incluir no ensaio coisa alguma que satisfaça o item III: "Demonstra que o argumento é válido". Se se explicitasse o argumento, ele teria a seguinte forma:
Se Hobbes diz que as leis da natureza são leis divinas, então Hobbes pensa que as leis da natureza são leis divinas.
Hobbes diz que as leis da natureza são leis divinas.
Logo, Hobbes pensa que as leis da natureza são leis divinas.
(Alguns filósofos diriam que [11] não exprime um argumento, mas só uma proposição e o indício a favor da sua verdade. Não desejo discutir isso aqui e peço que seja aceite como um argumento para fins de exposição.)
Há uma boa razão para mostrar esse argumento simples aqui, embora não no próprio ensaio. Alguns estudiosos julgam que o argumento não é sólido; dependendo da definição de "diz", é a primeira ou a segunda premissa que é falsa. Por exemplo, Leo Strauss acha que, por razões políticas, Hobbes escreveu, como muitos outros filósofos, palavras que não desejava ver tomadas literalmente. Num ensaio curto como este (cerca de duas páginas), não há espaço para discutir a interpretação de Strauss e nem sequer para mencioná-la.
Se o ensaio fosse ampliado para uma versão de 10-20 páginas, seria apropriado introduzir as ideias de Strauss neste ponto. (Para uma discussão adicional disso, vê o capitulo 4, secção 4, "Elaboração sucessiva".)
Consideremos agora a maneira como [11] satisfaz o item IV. Na primeira frase de [11], o autor dá como referência o Leviatã, que substancia propositadamente a sua posição. Na frase seguinte, o autor cita de facto as palavras de Hobbes como indício favorável à sua concepção, além de fornecer mais uma referência à obra deste. A última frase do parágrafo afirma que seria possível apresentar mais indícios, mas não as apresenta. O autor já fundamentou satisfatoriamente a verdade da premissa "Hobbes diz que as leis da natureza são leis divinas". Num ensaio mais longo, contudo, teriam de se oferecer mais indícios e alguma discussão sobre elas.
[12] Este parágrafo desenvolve um segundo argumento a favor da tese do autor. Embora teoricamente um único argumento sólido em favor de uma proposição seja suficiente para a provar, na prática é muitas vezes necessário ao autor desenvolver no ensaio mais de um argumento, a fim de alcançar o seu propósito. Há pelo menos duas razões para isso. Em primeiro lugar, o público com frequência não o reconhece como sólido se for o único argumento sólido apresentado em favor da conclusão. Parece ser um facto psicológico sobre os seres humanos ser mais fácil aceitar um argumento como sólido se houver vários outros argumentos, ainda que logicamente independentes do primeiro, que levem à mesma conclusão. Em segundo lugar, o público do autor é heterogéneo. Diferentes pessoas reconhecerão como sólidos diferentes argumentos. Uma pessoa pode ser persuadida por um argumento sólido e outra por outro, dependendo das suas crenças e dos princípios de prova que sustentarem antes da leitura. Assim, para convencer muitas pessoas, é tipicamente necessário desenvolver vários argumentos em favor da mesma conclusão. Isso, no entanto, não significa que o autor deva apresentar os seus argumentos com demasiada brevidade nem com insuficiência de detalhes. Não é do mesmo modo um estímulo para que ela apresente o máximo de argumentos que puder, por piores ou aparentemente piores que sejam. Apresentar um argumento mau ou um argumento que pareça mau pode prejudicar o objectivo do autor. Ainda que um argumento não-sólido a favor de uma proposição não indique que ela é falsa, pode provocar, com isso, o efeito psicológico de levar o público a pensar que a proposição é falsa. No tocante ao carácter persuasivo ou não do ensaio, apresentar 20 argumentos maus a favor de uma tese pode fazer muito mais mal do que apresentar apenas um argumento sólido. Deve-se enfatizar ainda que uma conclusão é verdadeira se houver ao menos um argumento sólido que a sustente e que a existência de um milhão de argumentos maus para a sustentar não prova que a conclusão seja falsa.
Se o argumento do item [12] fosse explicitado, a sua forma seria:
As leis morais são leis.
Todas as leis precisam de um legislador.
Não há legislador da lei moral além de Deus.
Logo, Deus é o legislador da lei moral.
[13] Esta frase introduz o item IV(b): "Levanta objecções". Trata-se da frase do parágrafo que introduz o teu tópico. Ela convida à questão "Por que será que Hobbes menciona Deus na sua dedução da lei moral?", sendo respondida nas frases imediatamente seguintes.
Trata-se de uma objecção-padrão levantada pelos críticos da Tese Taylor-Warrender. Assim, enquadra-se mais especificamente em IV(b)(I)(i). Num ensaio mais longo, seria apropriado fazer referência a pelo menos o mais importante desses críticos, e até descrever com alguma extensão as suas objecções. Se este ensaio fosse o esboço de um ensaio mais longo, elaborado pelo autor de acordo com o método da "Elaboração sucessiva", esse seria o lugar apropriado para o expandir da maneira descrita. Sendo ele breve, mesmo as referências aos oponentes de Taylor e de Warrender foram omitidas. Este segmento exprime de modo não qualificado a visão geral do autor. Essa visão geral precisa ser elaborada, o que vem nas frases seguintes.
[14] Esta frase começa a responder à objecção levantada em [13]. Começa, assim, a satisfazer o item IV(c).
[15] Esta frase dá continuidade ao item IV(c). Embora não seja óbvio — nem precise de o ser —, a partir desta frase, que a distinção entre forma e conteúdo é muito importante, no momento certo será. É importante que o autor não apresse a sua exposição. Ele não deve tentar dizer o que há para ser dito em uma ou duas frases; é preciso que ele desvele o seu pensamento passo a passo, nem de forma apressada nem tardiamente.
O ponto mais importante do ensaio não deve ser introduzido em resposta a uma objecção, dado que uma resposta é, de modo geral, uma parte subordinada, mas é muitas vezes legitimo introduzir como réplicas pontos dotados de certa importância. Se todas as réplicas forem relativamente sem importância, a leitura do ensaio será entediante.
[16] Esta frase dá continuidade a IV(c). Além disso, embora se inicie remetendo para Hobbes ("Para Hobbes"), ela amplia de imediato a sua importância ao generalizar ("como para todos os teóricos que recorrem à ordem divina"). O resto da frase serve então para caracterizar a diferença entre a forma e o conteúdo da lei. Uma caracterização é sempre geral e abstracta.
A frase seguinte toma a caracterização mais clara ao ilustrá-la com um exemplo.
[17] Esta frase dá um exemplo daquilo que é caracterizado em [16]. Torna a caracterização menos abstracta.
[18] Esta frase começa a explicar o exemplo; é proléptica, realizando-se nas duas frases seguintes, [19] e [20].
[19] Esta frase explica que parte do exemplo diz respeito à forma da lei, vinculando-a com as palavras de Hobbes ("como diz Hobbes"). Há uma certa redundância na informação dada em [19], mas essa repetição justifica-se, dado que o autor apresenta um ponto que o público provavelmente não conhece e explicá-lo de duas maneiras distintas reduz o ónus do leitor.
[20] Esta frase está coordenada com [19], mas [19] é bem mais breve do que ela. Ao que parece, é preciso dizer mais, o que é feito no próximo parágrafo.
[21] As expressões "a forma das leis morais" e "seu conteúdo", na primeira frase deste parágrafo, ligam-no ao anterior. Mais uma vez é criada coesão.
A maior parte deste parágrafo apresenta uma reconstrução da maneira como Hobbes vincula o conteúdo de uma lei moral como racional (ou dedutível) à forma de uma lei moral.
Isso completa a discussão de IV(c).
[22] Este parágrafo satisfaz V: Conclusão. Resume o argumento de todo o ensaio.»

Martinich, A. P. (1998). Philosophical writing: an introduction. Oxford: Backwell Publishers, pp. 52-66 (Traduzido e adaptado por Vítor João Oliveira).

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Argumentos ad hominem

"O recurso à argumentação ad hominem é, por vezes, tão poderoso e persuasivo que o seu uso tem como principal desvantagem acabar com qualquer troca de ideias ou com toda forma de argumentação objectiva e racional. Como afirma D. N. Walton, “o perigo é que o emprego excessivo de ataques pessoais pode resultar numa mudança dialéctica, baixando o nível da discussão critica para o da altercação pessoal, com resultados desastrosos para a lógica da argumentação” (D. N. Walton, 2006: p. 188).
Há diferentes tipos de argumento ad hominem. Consideremos o argumento ad hominem abusivo. Neste tipo de argumento pode criticar-se o carácter, as acções passadas ou as afiliações do argumentador, tais como alianças politicas, crenças religiosas ou a sua etnia. O ataque pessoal é dirigido contra a ética do argumentador, sugerindo que ele não é digno de confiança, não é uma pessoa íntegra ou que é desonesto. Há casos em que é posta em dúvida a sua capacidade de argumentar racionalmente, podendo mesmo ser sugerido que o argumentador é louco ou mentalmente desequilibrado e que, por conseguinte, o seu argumento não merece atenção ou respeito. O argumento ad hominem abusivo é sempre uma falácia.
Considere-se, a título de exemplo, o caso do julgamento de um assassinato, em que o advogado de acusação chamou a depor uma testemunha que afirma ter visto um alegado homicídio. O advogado de defesa perguntou o seguinte: “Sendo que o senhor é um conhecido toxicodependente, não é possível que estivesse sob a influência de drogas quando alegadamente presenciou o homicídio?”. Ora, isto é um exemplo de argumento ad hominem abusivo. Porquê? Porque é colocada em causa a credibilidade da testemunha, já que é matéria de facto que algumas drogas causam alucinações e se a testemunha estivesse de facto sob a influência de drogas no momento do homicídio, é possível que na realidade não tivesse visto o que afirmava ter visto.
O argumento ad hominem circunstancial contra a pessoa é baseado na alegação de que as circunstâncias da pessoa são incoerentes com a posição que defende na argumentação. Diz D. N. Walton que esta forma de ataque “é extremamente eficaz no debate político porque sugere que a pessoa atacada não segue, na própria conduta, os princípios que defende para os outros. Ou seja, quem não pratica o que prega não é uma pessoa digna de atenção e não poder ser levada a sério” (D. N. Walton, 2006: p.197).
Considere-se, a título de exemplo, o que Paulo Portas disse ao primeiro-ministro José Sócrates numa critica ao actual governo. Afirmou “Sr Primeiro-ministro, prometeu que iria baixar os impostos, mas a única coisa que fez até agora foi aumentá-los”. José Sócrates, em resposta a isto, afirmou que o anterior governo, de que Paulo Portas fazia parte como ministro, tinha prometido a mesma coisa, mas também não a tinha cumprido aquando da sua estada no governo. Este exemplo mostra não apenas o uso do ad hominem circunstancial, mas o maior perigo da argumentação ad hominem, a saber, a utilização de outro ad hominem como réplica – o que se designa de tu quoque – e que pode acabar com qualquer troca de ideias.
No ataque à imparcialidade do argumentador (ad hominem “poço envenenado”) é posta em causa a confiança e credibilidade do argumentador em questão relativamente a um determinado assunto, nomeadamente através da acusação de ser tendencioso por deter algum interesse, preconceito ou motivo oculto para apoiar, e com isso favorecer, um dos lados da discussão e contestar o outro. Por exemplo, num julgamento, um réu é acusado de burlas, branqueamento de capitais e outros crimes financeiros. O seu advogado de defesa sabe que o seu cliente é sócio maioritário de uma empresa. Ao investigar a empresa descobre que o nome do juiz do caso aparece como sendo portador de um elevado número de acções e tentativas de se tornar accionista maioritário dessa empresa e apresenta em tribunal um documento que prova que o juiz está de facto ligado à empresa e que, por isso, deve ser afastado do julgamento, por haver a possibilidade de o juiz ser parcial na sua decisão final, podendo beneficiar ou prejudicar o réu em seu favor. Note-se que neste caso o argumento apresentado não é uma falácia, pois o tema em discussão é pertinente e, a ser válido, poderia conferir alguma parcialidade à decisão do juiz.
Há circunstâncias em que as provas externas não são suficientes para sustentar uma dada tese. Quando isso acontece, um bom argumento ad hominem pode ser suficiente para que o ónus da prova oscile de um lado da discussão para o outro. Ora, para distinguir um bom argumento ad hominem de uma falácia ad hominem estabeleceram-se alguns critérios que podem demonstrar incoerência por parte do orador. Por exemplo, mostrar concessões ou comprometimentos do orador, explicitar posições internas ou pôr em questão a sua imparcialidade, sinceridade ou a credibilidade pode ser altamente eficaz num diálogo racional."

Bibliografia
Walton, Douglas N. (2006). Lógica Informal. São Paulo: Martins Fontes, pp. 187-239


Trabalho realizado no âmbito da disciplina de Filosofia pelo Ruben e pelo Daniel do 11º C (ano lectivo 2007/08)