domingo, 18 de maio de 2008

James Benjamim, "Elementos da Retórica Aristotélica"

«Considera Aristóteles (384-322 d.C.), em primeiro lugar, que a verdade só pode sobressair em condições de igualdade e que apenas a retórica pode assegurar às partes em disputa hipóteses iguais. Em segundo lugar, que apenas a retórica pode ensinar as pessoas que não estão treinadas os complexos silogismos e a dialéctica platónica. Por outras palavras, a retórica pode ser usada para popularizar questões importantes. Em terceiro lugar, sugere que a retórica é valiosa mas não por julgar um caso – é uma arte que pode ser usada pelas duas partes em disputa. Finalmente, defende que à retórica é importante para alguém se defender de ataques. A arte da auto-defesa verbal era tão necessária na Grécia Antiga como o é nos nossos dias.

Para Aristóteles a retórica é “a arte de descobrir, em qualquer caso, os meios adequados de persuasão”. Na sua opinião, existem dois tipos de prova. Uma prova não artística, criada para suportar uma posição que não era criada pela arte da retórica. Uma prova não artística incluía aspectos como a evidência física. Por exemplo, as manchas de sangue na cena do crime são evidências persuasivas, mas não são artísticas por não serem criadas pela arte da retórica.

Um segundo tipo de prova é a artística. Esta pode ser de três tipos: baseada no carácter da fonte (ethos), nas emoções da audiência (pathos) e na lógica do caso (logos). Deve-se recordar que o termo grego logos pode ser traduzido como “a palavra” tal como é usado no Górgias, mas também pode significar a lógica do caso como é exemplo o uso que Aristóteles faz do termo.

De acordo com Aristóteles, “os modos de persuasão decorrentes da palavra falada são de três tipos”. O primeiro depende do carácter do orador; o segundo depende de colocar a audiência num determinado estado mental; o terceiro depende da prova, ou da prova aparente, fornecida pelo próprio discurso. A persuasão é alcançada pelo próprio carácter do orador quando o discurso é realizado para fazer a audiência acreditar que ele é credível. Acreditamos mais facilmente e mais fortemente nos homens bons do que nos outros; esta é uma verdade geral, independente da questão a provar, e é absolutamente verdadeira quando não é possível uma certeza exacta ou quando as opiniões estão divididas. Este tipo de persuasão, tal como outras, deve ser alcançada pelo que o orador diz, não pelo que as pessoas pensam do carácter do orador antes de começar a discursar. Mas não é verdade, como assumem alguns nos seus tratados de retórica, que a bondade pessoal revelada pelo orador em nada contribui para o seu poder de persuasão; pelo contrário, o seu carácter pode quase ser chamado como o mais eficaz meio de persuasão de que dispõe.

A visão de Artistóteles do ethos (…) [permite concluir] que a percepção do carácter da fonte da persuasão influencia claramente as respostas da audiência à sua mensagem. Por outras palavras, o persuasor deve aparecer à audiência como especialista, confiável e amigável.

Aristóteles dedicou imenso tempo à análise detalhada da questão do pathos ou da prova emocional. Fúria, brandura, amor e amizade, ódio, medo, confiança, vergonha, descaramento, benevolência, piedade, indignação, inveja, rivalidade e contentamento receberam uma atenção concreta. Também sugeriu que as audiências podem ser consideradas de acordo com grupos etários. Por exemplo, sugeriu que os mais jovens têm desejos fortes, são confiáveis, preferem a honra ao expediente, e possuem aspirações elevadas. As pessoas mais maduras, em contraste, tentam aderir tanto à honra como ao expediente, não são nem excessivamente confiantes nem demasiado tímidas, e valorizam a poupança nos seus desempenhos. Aristóteles acreditava claramente que a persuasão é mais do que apresentar um discurso lógico; também envolve invocar as emoções da audiência.

O terceiro elemento aristotélico, logos, é uma extensão e adaptação dos seus escritos de lógica. (…) Nesta síntese, devemos notar que Aristóteles sugeriu que existem dois tipos lógicos de raciocínio retórico. Um é o entimema, uma forma retórica de raciocínio dedutivo no qual se pede à audiência que aceite inicialmente uma generalização e que retire depois uma conclusão sobre uma instância concreta. O segundo tipo é o raciocínio através de exemplos, uma forma retórica de raciocínio indutivo no qual a audiência deve ser questionada para iniciar com um caso específico e derivar uma generalização a partir dele. Por exemplo, uma audiência pode ser desafiada para inferir que um programa de bem-estar bem sucedido em New York, San Antonio, Mineápolis e Los Angeles deve igualmente funcionar em Detroit, ou pode-se pedir que conclua que é razoável esperar que um programa de vigilância que reduziu a criminalidade num bairro de Brooklyn possa permitir reduzir a criminalidade numa qualquer área metropolitana.

Raciocinar por entimema é uma adaptação retórica do silogismo categórico, o método formal de alcançar conclusões baseado na dedução. No silogismo inicia-se com uma generalização designada de premissa maior. Existe depois uma instância específica designada de premissa menor. Se o nosso raciocínio segue as regras do silogismo válido, podemos inferir uma conclusão baseada nas premissas maior e menor. Por exemplo, podemos defender que uma grande empresa explora os seus trabalhadores (premissa maior) e que a Megacorp é uma grande empresa (premissa menor). Por isso, a Megacorp explora os seus trabalhadores (conclusão). Um entimema, uma forma de raciocínio silogístico, é uma forma abreviada de silogismo no qual se espera que a audiência preencha os elementos suprimidos do argumento. Por outras palavras, em vez de enunciar o silogismo, espera-se que a audiência diga algo semelhante a “devemos controlar as grandes empresas, por isso devemos controlar a Megacorp”. Ao apresentar o entimema, espera-se que a audiência participe no raciocínio “preenchendo as lacunas” que o entimema deixa de fora do silogismo cabalmente realizado.

[…] No raciocínio através de exemplos. Aristóteles desenvolveu uma forma de raciocínio indutivo. Neste tipo de raciocínio, consideram-se uma série de elementos específicos a partir dos quais se infere uma generalização. Isto envolve realizar um “salto indutivo” que implica que o que é verdadeiro para um conjunto de elementos sê-lo-á também para outro conjunto de elementos similar não analisado. Por exemplo, no estudo paleontológico dos fósseis, verifica-se um debate sobre se certos dinossauros são antepassados dos pássaros ou dos répteis. Aqueles que são a favor da tese que os dinossauros são os antepassados dos pássaros defendem que os ossos ocos, a enorme densidade de vasos sanguíneos fossilizados e outros elementos, são características genéricas de animais de sangue quente como é o caso das aves mais do que de animais de sangue frio como é o caso dos répteis. Os persuasores usam com frequência exemplos para generalizar a partir de situações concretas.

[…] Na opinião de Aristóteles, o argumento através de exemplos é uma técnica de persuasão particularmente útil, porque fornece um carácter de especificidade ao processo – “têm o efeito de testemunha da evidência, e isto conta sempre.»

Benjamim, J. (1997). Principles, Elements and Types of Persuasion. Orlando: Harcourt Brace & Company, pp- 42-5 (Traduzido e adaptado por Vítor João Oliveira)

2 comentários:

Sara disse...

Passados uns aninhos de ter estudado a Retórica Aristotélica no secundário, interessei-me novamente pelo assunto devido ao estudo dum discurso de Obama numa aula de inglês, o que me levou a pesquisar o tema no Google. Será que o Vitor Oliveira que traduziu este texto foi o meu professor de Introdução à Filosofia na Escola Secundária Marques de Castilho?

Vítor João Oliveira disse...

Olá Sara! Fui de facto professor de IF na Marques castilho durante 9 anos. Para me lembrar de quem és, vais ter que dizer mais qualquer coisa. Seja como for o meu mail está disponível no blog.