quarta-feira, 23 de julho de 2008

Usos do Argumento: Refutação

Argumentamos por vezes para refutar os argumentos dos outros. Refutar um argumento é mostrar que ele não é bom. Podemos refutar um argumento sem ser necessário provar que a sua conclusão é falsa. Podemos refutar um argumento fazendo uma de três coisas: (1) mostrar que a conclusão não é válida, quer dizer, não se segue das premissas; (2) mostrar que as premissas ou alguma(s) das premissa(s) são duvidosas ou mesmo falsas; e (3) ou mostrar que o argumento não se relaciona com a tese que quer provar.

Vejamos exemplos de três métodos de refutação:

a) Sabemos que um argumento não é válido se parte de premissas verdadeiras e conduz a uma conclusão falsa. Amiúde não podemos apontar este aspecto para refutar um argumento, pois a verdade ou falsidade da conclusão é exactamente o que está em questão. O que fazer? Recorrer a um mecanismo em que se utiliza o mesmo tipo de argumento permitindo chegar a uma conclusão insatisfatória. Exemplo:

João: Se tivesse um salário alto, então poderia comprar mais coisas; e se todos tivessem salários mais altos, então todos poderiam comprar mais coisas.
Rita: Isso é o mesmo que dizer que se uma pessoa se levantar num estádio, então verá melhor o jogo; e se todos se levantarem num estádio, então todos verão melhor o jogo.

À primeira vista não é óbvio que o argumento do João seja ou não válido. A resposta da Rita mostra que é inválido recorrendo a um argumento semelhante na forma, já que se todos se levantarem num estádio, apenas os mais altos verão melhor. Fica então claro porque é que o argumento do João é inválido: do mesmo modo que fica claro que ver melhor não decorre necessariamente de estar de pé, mas da altura de uma pessoa, também o poder de compra de uma pessoa é afectado pelo poder de compra dos outros, pois o aumento da procura tem efeitos na oferta. Portanto, podemos refutar um argumento através do mecanismo “É o mesmo que dizer…”.

b) A segunda forma de refutar um argumento é atacando uma das suas premissas. Podemos defender que não há uma boa razão para aceitar que uma dada premissa seja verdadeira perguntando por exemplo “Como sabes que é assim?”. Se não houver forma de justificar a premissa, então o argumento falha. Também podemos provar que a premissa é de facto falsa. Seja como for, refutamos o argumento refutando uma das suas premissas.

A forma habitual do o fazer é apresentando um contra-exemplo. Os contra-exemplos dirigem-se habitualmente a premissas universais. Uma premissa universal será falsa se encontrarmos pelo menos um caso que prove o contrário do que afirma. Se alguém defende que as cobras põe ovos, basta encontrar um tipo de cobra que não ponha ovos para provar que nem todas as cobras põe ovos. Como vês, o padrão de refutação neste caso é muito simples: refutar uma proposição que defende que todos os elementos de um conjunto possuem uma dada característica, basta mostrar que há pelo menos um exemplar desse conjunto que não a possui. Há quem defenda que a excepção serve apenas para confirmar a regra. Esquecem-se que no caso, confirmar significa testar e se a premissa universal falha o teste da confirmação, então será falsa.

c) Os contra-exemplos servem para refutar proposições universais. Então como podemos refutar proposições que não são universais? Mostrando que uma dada proposição tem implicações ridículas ou absurdas. Este modo de refutação designa-se por reductio ad absurdum (redução ao absurdo). Este método não mostra exactamente o que está errado na proposição, mas que algo está errado com a proposição. Na maioria das vezes isto é suficiente para refutar um argumento. Por exemplo, supõe que alguém defende que existe uma montanha que é a mais alta de todas, que existe um ser humano que é o mais maléfico de todos, pelo que deve haver igualmente um número inteiro que é o maior de todos. Supõe que existe o número inteiro maior. Designe-se de N. Uma vez que N é um número inteiro, então N+1 também é um número inteiro. Podes concluir que N+1 será maior do que N. Mas é absurdo que o maior número inteiro seja maior que o maior dos números inteiros. Logo, a suposição de que existe um número inteiro que é o maior de todos é falsa.

A redução ao absurdo tenta mostrar que determinada proposição, X, é falsa porque implica uma outra proposição, Y, que é absurda. A forma deste argumento é a seguinte: Se X, então Y. Se X, então não Y. Logo, não X.

Para avaliar uma redução ao absurdo, tem que se colocar três questões:
(1) X implica de facto Y?
(2) É realmente absurdo?
(3) Podemos modificar X de uma forma que deixe de implicar Y?
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3 comentários:

AEF disse...

Fantástico o que a Internet nos permite. Venho na blogosfera encontrar o blog de um professor da "minha escola". Fiz aí todo o liceu, como me habituei a dizer, apesar de ter sido no período "escola secundária".
Um forte abraço.
Se esyiver por aí a minha professora de filosofia, de que não me recordo agora o nome, envio-lhe também um forte abraço.
Criei um blog para unir os antigo alunos da escola http://esobairro.blogspot.com/
Ângelo Eduardo Ferreira,
aluno até 1988

David Velasquez disse...

Gostaria de dar os parabens ao professor Vitor Oliveira, tanto pelos comentarios como pelo exelente blogue.
Um abraço do seu aluno David Velasquez, esperando que cotinue com tão boas publicações.

Vítor João Oliveira disse...

Obrigado, David. Um abraço e felicidades.