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segunda-feira, 21 de abril de 2008

Nigel Dower, "Cidadania Global: Sim ou Não?" (Parte VI)

«Desafio à cidadania nacional?
(a) A cidadania mundial desafia a cidadania/lealdade nacional.
(b) A cidadania não desafia a cidadania/lealdade nacional, mas complementa-a.

A favor de (a): A cidadania mundial, mesmo que tenha pouco que ver com um governo mundial, envolve inevitavelmente um compromisso com um ideal moral e com certas prioridades morais que reduzirão o nível de compromisso com o estado-nação, independentemente do nível do sentimento ser inferior ao verdadeiramente patriótico, levando-nos a não gastar energias com a promoção do bem-estar da nossa própria comunidade (por causa de outros compromissos) e até ao enfraquecimento do compromisso de obediência à lei. Em qualquer caso a lealdade para com o estado-nação, é diferente da obediência à sua própria lei, é uma atitude de fidelidade que está destinada a ser desafiada por um compromisso mais amplo ou por uma obrigação para com o bem comum global.
Esta posição pode uma vez mais ser adoptada tanto por aqueles que se opõe à cidadania mundial baseada no facto da relação entre o cidadão e o seu estado ser moralmente importante; mas também por aqueles que, ao defenderem uma cidadania mundial, desejam desafiar o conjunto actual de prioridades e ligações dos cidadãos aos seus estados.

A favor de (b): A oposição funda-se num contraste exagerado entre o que são as coisas no interior de um estado sem cidadania mundial e o que são com ela. A ideia de um lealdade absoluta ao estado não corresponde pura e simplesmente à realidade nem é requerida por uma concepção de cidadania nacional adequada. À parte um grande número de razões pelas quais as pessoas aceitam a possibilidade da desobediência civil justificada (que podem não ter qualquer relação com questões globais), as pessoas combinam inúmeros compromissos morais (às sua igrejas, à caridade, às paixões particulares) com os seus compromissos enquanto cidadãos sem qualquer tipo de problema. Em qualquer caso, a concepção Estóica dos círculos concêntricos da família, da comunidade imediata, da comunidade política, do mundo (ou do universo) pode ser adoptada (Nussbaum, 1996). Muita da preocupação expressa através da cidadania mundial pode de facto ser mediada pelas estruturas políticas existentes ou por ONG’s que trabalham em conjunto com os sistemas políticos nacionais.

Comentário crítico: Ainda que seja correcto afirmar que a aceitação da cidadania mundial não precisa conduzir a qualquer oposição formal, não seria sincero recusar que a cidadania mundial activa, em termos de compromisso moral, mas também em termos do sentido de identidade e fidelidade relativamente a um corpo político mais amplo, tem consequências quanto ao modo como pensamos a cidadania nacional. Estes compromissos vão para além da existência de outras ligações mais normais no interior de uma sociedade, da mesma forma que o nível da cidadania europeia pode misturar-se com a cidadania nacional dos estados membros. Em qualquer caso, quanto maior for o número de cidadãos que adoptem perspectivas globais, mais os interesses dos países acabarão por harmonizar-se com o bem de todos.

Conclusão
Que conclusões podemos retirar desta série de perspectivas opostas sobre a cidadania global? É tentador dizer que não há respostas correctas ou que não interessa que respostas damos, já que tudo dependerá do modo como definimos a noção ou dos valores em que acreditamos. Mas este seria um veredicto demasiado fácil, uma vez que há vantagens e desvantagens nas diversas definições assim como há consequências importantes relativamente às diversas posições éticas que estamos dispostos a defender.
É claro que vimos que podem ser dadas diferentes definições. Será a tese de que somos cidadãos globais uma tese ética ou será uma tese institucional, como a tese que somos cidadãos normais, ou será ambas? Se é institucional, que formas tem ou deve ter? Se levamos a sério o paralelismo com a cidadania, será primariamente acerca dos direitos, acerca dos direitos e dos deveres correlatos, ou será também sobre responsabilidades mais amplas e sobre a participação nas questões públicas (globais)? Será que somos todos cidadãos ou só alguns o serão, ou será melhor pensar em dois níveis de cidadania básica e activa?
Vimos que muitas questões transformam-se em posições éticas. A questão mais fundamental é saber se devemos aceitar uma ética global ou não. É claro que há aqueles que estão cépticos acerca disto. Mas mesmo que aceitemos uma, quão importante será expressá-la através do discurso da cidadania global? Se aceitarmos uma ética global, qual será o seu conteúdo e que tipo de justificação lhe damos? E se aceitarmos esta perspectiva, será que isso requer a revisão das nossas atitudes relativamente à cidadania nacional e ao patriotismo?
A minha forma preferida de pensar a cidadania global é a seguinte: todos os seres humanos são cidadãos globais em virtude dos direitos e deveres que todos têm enquanto seres humanos. Esta ética global pode ser pensada de formas diversas (desde o objectivismo tradicional ao subjectivismo) e o seu conteúdo pode variar. Apenas seres humanos são cidadãos globais “activos” porque aceitam a responsabilidade de perseguir preocupações globais. Ser um cidadão global não é só uma questão de aceitar uma ética global; significa pertencer e participar numa comunidade mais ampla que encontra expressão numa variedade de instituições no interior da sociedade civil global que já existe, mas nas quais o cidadão global se deve empenhar com vista ao seu desenvolvimento e reforço.

Questões
1.
Será que a resposta à questão “Seremos cidadãos globais?” depende simplesmente do modo como escolhemos definir a noção “cidadãos globais”?
2. Se se vê a si próprio como cidadão global, pensa que aqueles que não se vêem a si próprios como cidadãos globais não o são? Se não se vê a si próprio como cidadão global, aceita que outros o sejam? Por que pensa como pensa?
3. Se a cidadania global é mais do que uma tese sobre a responsabilidade global, que desenvolvimentos terão que acontecer no mundo para determinar de forma conclusiva que somos cidadãos globais?
4. Será a cidadania global mais do que uma tese sobre direitos universais ou sobre obrigações universais?»

Nigel Dower, “Global Citizenship: Yes or No?”, in Dower, Nigel & Williams (ed.). Global Citizenship: a Critical Reader. Edinburgh; Edinburgh University Press, pp. 30-40 (Traduzido e adaptado por Vítor João Oliveira)

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Nigel Dower, "Cidadania Global: Sim ou Não?" (Parte IV)

«Base ética objectiva?
(a) A cidadania mundial pressupõe uma ética objectivista tradicional e um conceito universal com normas centrais intemporais e perenes.
(b) A cidadania mundial não pressupõe uma ética objectivista tradicional mas pode ser defendida por qualquer ética com um conteúdo apropriado, cuja normas centrais sejam relativas ao tempo e ao espaço.

A favor de (a): A cidadania mundial é uma concepção que emergiu de um certo tipo de pensamento ocidental associado ao Iluminismo. Defende uma ordem global enformada por um conjunto de valores partilhados. Embora o carácter particular destas éticas varie – Lei Natural, Kant, Utilitarismo, Direitos Naturais – todas partilham a característica comum de serem objectivamente verdadeiras ou válidas, descobertas universalmente e a priori por um teórico, na acepção em que Bull o entende, num cadeirão e não através de uma investigação empírica do que está estabelecido. (Bull prefere o que designa de aproximação a posteriori que funda os valores morais num acordo geral (Bull, 1979); para uma análise das teorias éticas tradicionais de tipo cosmopolita ver Dower 1998). De acordo com esta perspectiva, se for aceite a posição que defende que os valores não são universais, quer dizer, que variam de cultura para cultura, então não é possível uma ética global e não há fundamento para um conjunto de normas morais que sustentem a cidadania mundial. Nada haverá de particularmente moderno na ideia de cidadania mundial, desde que os estóicos a defenderam; e não dependerá seguramente das condições políticas modernas ou da presença da moderna tecnologia.
Esta posição pode, uma vez mais, ser defendida por um ou outro de dois tipos de pensamento diversos. Primeiro, há aqueles que, por suspeitarem de uma ética objectivista do tipo tradicional, rejeitam o discurso da cidadania mundial por este se fundar num erro teórico e de poder ser, na prática, uma forma de imperialismo cultural, em parte por se basear em ideias que emanam do Iluminismo europeu. Por outro lado, há aqueles que advogam a cidadania mundial precisamente por afirmarem aquela perspectiva ética e por acreditarem que é a única base sólida para construir um tal discurso.

A favor de (b): A cidadania mundial, tal como a cidadania nacional, não propõe qualquer tipo de teoria ética. A cidadania nacional baseia-se em alguns valores partilhados, ainda que grupos diferentes numa sociedade pluralista possuam igualmente valores divergentes. Em que medida esses valores acabam por ser partilhados ou qual a sua fonte, é uma questão de importância secundária. O que interessa para uma ética global é que os agentes aceitem que possuem razões morais para agir responsavelmente relativamente a todo mundo e cooperar na protecção dos interesses comuns e assim por diante. Esta ética pode muito bem ser construída e progredir ou desenvolver-se gradualmente através da negociação. Assim, as condições modernas são cruciais, especialmente no sentido em que as modernas tecnologias da comunicação tornam possíveis formas de identidade e de cooperação e tipos de instituições que não o eram no passado. Em alternativa, a ética de alguém que se chama a si próprio cidadão global pode fundar-se em valores pessoais e subjectivos, que não derivem nem de factos objectivos nem de consensos ou acordos.

Comentário crítico: Uma vez que a posição (b) está aberta no sentido em que admite tanto teorias éticas tradicionais como outras bases éticas, e uma vez que há claramente pessoas que no mundo moderno rejeitam o pensamento tradicional, mas que se vêem a si mesmas como cidadãos globais, parece que (b) precisa ser aceite. Mas precisamos ser cautelosos. Certamente que a cidadania global num sentido institucional pode ser um desenvolvimento moderno peculiar, porque é num contexto de problemas globais partilhados que as pessoas cooperam e desenvolvem normas e valores éticos partilhados. Mas há aqui aspectos idênticos da cidadania mundial – o moral e o institucional – que podem apontar em direcções opostas. Qualquer pessoa racional, talvez por causa da percepção dos problemas globais comuns, procurará chegar a um consenso com pessoas que possuam teorias éticas bastante diferentes quanto a um tipo de ética global, a qual, embora não seja objectiva no sentido tradicional, será aceitável à luz do pensar individual. Se fosse tradicional (por exemplo, kantiana, utilitarista, cristã), seria de um tipo que poderia ser aceite por indivíduos racionais em diferentes épocas.
Na medida em que a cidadania mundial implica o desenvolvimento de instituições comuns através das quais os indivíduos possam trabalhar, e à medida que essas instituições se desenvolvam, maior será o conjunto de normas que exigirão acordo (frequentemente através de um processo de negociação). Estas normas decorrerão não de uma teoria mas do consenso e serão sustentadas por um conjunto amplo de agentes cujos pontos de partida teóricos serão bastante variados. Por isso, num certo sentido, a cidadania mundial não precisa pressupor uma qualquer teoria ética particular ou um tipo de ética teórica, mas precisa de um outro nível em que cada pessoa que aceite ser um cidadão global possa ter a sua própria teoria ética (Dower, 1998: cap. 6).»

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Nigel Dower, "Cidadania Global: Sim ou Não?" (Parte III)

«3. Governo mundial?
(a) A cidadania mundial está conceptualmente ligada ao governo mundial.
(b) A cidadania mundial não está conceptualmente ligada ao governo mundial mas envolve o compromisso de trabalhar através de outro tipo de instituições globais e com o seu desenvolvimento.

A favor de (a): se a cidadania deve fazer algum sentido neste contexto, deve ser em todas as vertentes da cidadania no contexto do estado-nação, então a cidadania mundial deve ser uma cidadania de um estado global com todas as estruturas análogas de obediência, impostos e assim por diante.
Esta posição pode ser adoptada por quem rejeita a ideia de uma cidadania mundial considerando o mundo tal qual é hoje, baseado no facto de não possuirmos nem estarmos perto de possuir um governo mundial, independentemente de se pensar que tal coisa seja desejável. Contudo, é mais provável que quem pense que isso é desejável não venha a negar a existência de uma cidadania mundial, mas a perspectiva de que somos (ou são pelo menos aqueles que aceitam as posições) cidadãos mundiais em virtude do seu compromisso para trabalhar na criação de um estado mundial federal (através de todos os canais incluindo as instituições existentes).

A favor de (b): A cidadania mundial não deve ser entendida como exigindo a referência a um governo mundial (ou exigindo a referência a instituições de um tipo particular) mas a uma variedade de instituições – partidos nacionais, ONG’s, redes globais de diversos tipos – através das quais podem expressar-se as preocupações globais. Estas instituições já existem parcialmente mas podem, naturalmente, ser desenvolvidas e parte do compromisso da cidadania global é precisamente com o desenvolvimento dessas instituições, para que as responsabilidades globais possam exercer-se de forma mais efectiva.

Comentário crítico: A questão aumenta a importância de fazer uma avaliação das instituições para que uma concepção robusta de cidadania mundial faça sentido. Se fossemos cidadãos mundiais num estado mundial, então seríamos todos cidadãos globais em virtude da comunidade política a que pertenceríamos (independentemente de o queremos ou gostarmos dessa realidade). O que dizer então das instituições existentes? Por um lado, há um sentido em que é opcional trabalhar através delas para alcançar certos objectivos globais e depende, por isso, do que os agentes decidam fazer. Segundo esta perspectiva faz menos sentido falar que todas as pessoas são cidadãos mundiais (ver 5 mais à frente). Por outro lado, isto serve para contrariar fortemente a tentativa de afirmar que as pessoas são cidadãos mundiais sem se que disso se apercebam. Então se a tese de que somos cidadãos globais é demasiado forçada (para além de ser uma pretensão moral sobre a responsabilidade), precisamos de uma explicação mais robusta das instituições que nos transformam a todos em membros de instituições globais quer nos apercebamos disso quer não. Pode até ser que precisemos desenvolver três ideias que estão a receber cada vez maior atenção – governança global (por exemplo, a Comissão Global para a Governança Global, 1995), democracia global (por exemplo, Held, 1995a) e sociedade civil global (por exemplo, Linklater, 1999a). Para além disso há instrumentos legais internacionais, especialmente os direitos humanos, que fornecem um dispositivo para pensar em todos os seres humanos do mundo de uma forma que está para além do mero sentido moral.»

Nigel Dower, "Cidadania Global: Sim ou Não?" (Parte II)

«2. Concepção vaga?
(a) A cidadania mundial é uma concepção vaga e incoerente; degrada a concepção corrente de cidadania e é redundante relativamente à expressão adequada de uma ética global.
(b) A cidadania mundial não é uma concepção vaga, mas potencialmente rica e dinâmica; dada a aceitação de uma ética global, é preferível a adopção da categoria de cidadão mundial à sua rejeição.

A favor de (a): A extensão a ideia de “cidadania” para além dos termos afins de comunidade política e de comunidade moral em que tal pertença ocorre, esvazia-a do seu significado real. Este é um argumento que se baseia em parte na natureza política especial da cidadania (como defende Miller) e em parte na ideia mais geral de que ganhamos a nossa identidade particular de comunidades morais (como MacIntyre e outros comunitaristas defendem). Assim, MacIntyre vê os cidadãos mundiais como “desenraizados” e defende que ao tornarem-se cidadãos de todo o lado acabam por se tornar cidadãos de lugar nenhum (Cfr. Almond, 1990). Na mesma linha, Cooper vê os académicos que se preocupam com o ambiente como alguém que viaja em jactos pelo planeta ao mesmo tempo que discorre eloquentemente sobre o ambiente global acabando por perder de vista o ambiente como um campo de significado (Cooper, 1992). Por isso não somos realmente cidadãos globais, uma vez que a cidadania está restringida à pertença a uma comunidade política, e qualquer tentativa para usar a noção neste sentido amplo será, na melhor das hipóteses, metafórica, e, na pior, enganadora. Se, de um ponto de vista pragmático, deve servir para fortalecer a motivação, então pode haver alguma justificação para um uso incorrecto ou enganador da noção. Mas não é este o caso. A dimensão da resposta que os cidadãos dão aos seus deveres globais é função daquilo que as teorias éticas que eles aceitam e do modo de ser da cultura moral geral que os rodeia, mas não é função particular desta noção específica.

A favor de (b): De um ponto de vista político, há diversas formas segundo as quais as instituições através das quais podemos agir podem ser estendidas para além do estado-nação. De um ponto de vista ético, não nos tornamos desenraizados a não ser que rejeitemos os nossos outros níveis de identidade e comunidade. Tal rejeição não é exigida pela aceitação de uma cidadania mundial. De modo análogo, ninguém supõe que uma criança seja cidadão mundial antes de ser membro da sua família ou então que desista desta pertença quando aceita ser cidadão! Os estados modernos já são demasiado grandes para que a maioria dos indivíduos se sinta bastante identificado com ele, mas a sua ligação mostra-se através do modo como se envolve nas pequenas organizações e nas comunidades de pertença (frequentemente de carácter local). O que é significativo é que os interesses e preocupações destes grupos são globais no carácter. Podemos adaptar o adágio “pense globalmente, aja localmente” para que passe a significar “planeie globalmente, aja localmente”.
A ideia de ser um cidadão global permitirá, se aceite, reforçar a motivação de alguns agentes e persuadir outros de forma mais eficaz, uma vez que não afirma apenas os deveres envolvidos, mas descreve-nos como membros de uma comunidade global. Em qualquer caso, qualquer resposta ética adequada aos problemas do planeta deve implicar a acção de diversas instituições já que estas corporificam adequadamente a cidadania global. Se de facto somos cidadãos globais, quer dizer, se estamos a agir no interior de uma comunidade global, então a verdade exige que reconheçamos esta dimensão das nossas vidas.

Comentário crítico: Embora os cépticos estejam errados em supor que a categoria da cidadania mundial possa não ser psicologicamente dinâmica (tanto política como eticamente), estão certos em reconhecer o perigo de que uma concepção puramente ética de cidadania global seja inadequada; deve dar-se atenção à criação das condições correctas da identidade, motivação e ao sentimento de estar enraizado em comunidades relevantes, que não precisam estar situadas em áreas geográficas concretas. Um exemplo de uma comunidade de pertença não localizada seria um grupo virtual de interesses.
Um dos temas chave deste problema relaciona-se com a natureza e carácter da ética global aceite. As teorias morais que exigem uma acção abrangente num nível global podem conduzir ao reconhecimento da eficácia do discurso da cidadania global, ainda que os argumentos inicias não se comecem aí. Por exemplo, a ética radical do sacrifício de Peter Singer com vista a erradicar a pobreza, é afirmada e defendida sem referência a uma cidadania mundial. (“Se pudermos impedir que um mal aconteça, sem sacrificarmos algo de importância moral comparável, devemos fazê-lo” (Peter Singer, 1979: cap. 8)) Para além de que a compreensão das nossas responsabilidades para com os membros de uma comunidade moral global ajudaria à aceitação de um princípio da acção concertada. Ainda assim, tem que reconhecer-se que embora o discurso da cidadania mundial possa ser necessário, depende da aceitação de uma ética global robusta (embora não tão exigente como os princípios de Singer), ao que se seguirá seguramente que todos e cada um que aceitem que uma tal ética tenha que usar ou aceitar uma tal categoria. É que há formas diversas de motivar as pessoas.»

sábado, 29 de março de 2008

Nigel Dower, "Cidadania Global: Sim ou Não?" (Parte I)

«A ideia de um cidadania global ou de uma cidadania mundial – tomo estas noções como sinónimas – é altamente controversa. Muitos defendem que estamos ainda nos primórdios de uma cidadania mundial, enquanto outros consideram a ideia absurda. Uma forma de compreender porque existem posições tão diversas sobre se de facto somos cidadãos globais é através de análise de um conjunto de afirmações concretas e contraditórias que apresentarei a seguir e do exame das razões que se pode avançar para cada uma delas. No mínimo isto revelará a complexidade desta área. Para cada caso apresentarei um comentário crítico o qual será por vezes um resumo das posições opostas, e noutras a defesa de uma posição que reconhece aspectos relevantes assumidos pelo lado contrário.

1. Ética ou institucional?
(a) A cidadania mundial é uma concepção essencialmente ética sobre o que as pessoas estão moralmente obrigadas a fazer.
(b) A cidadania mundial é uma concepção essencialmente institucional sobre a pertença a instituições de um tipo especificamente global.

A favor de (a): A ideia essencial de uma cidadania mundial vem dos Estóicos e tinha que ver com a relação não-artificial que mantínhamos com o universo (e que poderíamos reconhecer se fossemos suficientemente sábios); o que se rejeitava era a relevância das identidades artificiais e contingentes dos seres vivos em comunidades políticas concretas (por exemplo, Heater, 1996). As comunidades políticas são artificiais no sentido em que são criadas e modificadas pela vontade dos seres humanos e são contingentes porque é um acidente eu ter nascido num dada comunidade política, sendo a minha pertença contingente bastante diversa da minha natureza essencial como ser humano. No mundo moderno, a cidadania mundial pode expressar-se através de vários tipos de instituições (e pode um dia expressar-se através de instituições artificiais de governança mundial). Mas permanece como núcleo duro da cidadania mundial a afirmação de um compromisso moral individual básico, baseado na lei natural, nos direitos humanos, no respeito kantiano pelas pessoas ou numa qualquer teoria ética similar que não funde a ética numa convenção ou num acordo. É a partir desta vantagem que qualquer pessoa pode distanciar-se de qualquer instituição actual, global ou de outro tipo (como inúmeros Estóicos fizeram relativamente ao que na altura era, de facto, um império mundial, nomeadamente o Império Romano). Por exemplo, um futuro estado mundial pode inquestionavelmente transformar qualquer pessoa num cidadão mundial num sentido legal, mas esta pode estar profundamente descontente com esse facto por causa das políticas desse estado e, como verdadeiro cidadão mundial, responder apenas perante uma lei moral mais elevada.

A favor de (b): A cidadania mundial não faz sentido a não ser que seja entendida em termos institucionais, uma vez que a cidadania é ela própria um conceito institucional. Podemos ser seres humanos por natureza (com certos deveres e direitos enquanto tal) mas o estatuto de cidadania é essencialmente artificial, dependendo de uma construção de tipos de instituições concretas em virtude das quais somos cidadãos.
Esta posição pode ser adoptada em primeiro lugar por alguém que queira rejeitar a ideia de uma cidadania mundial com base no facto de não existirem instituições relevantes. Por exemplo, a defesa que David Miller faz da cidadania baseada no estado-nação assume esta forma (Miller, 1999). Então a ideia não é considerada a não ser como concepção moral de interesse e relevância duvidosos (e enganadores para um mundo moderno que possui ideias claramente estabelecidas sobre a cidadania independentemente do que possa ter acontecido no mundo antigo).
Por outro lado, a posição pode ser adoptada pelos que aplaudem a ideia de uma cidadania global. Quer dizer, enquanto que a ideia de cidadania mundial pode ser estendida para além do politicamente convencional, essa extensão depende de forma crucial de um factor institucional, nomeadamente do facto de efectivamente existirem ou desejar que existam certos tipos de instituições através das quais uma cidadania mundial possa expressar-se. Segundo esta perspectiva, seremos cidadãos mundiais? Alguns poderão dizer que não, mas que devemos empenhar-nos na criação de instituições relevantes; outros dirão que já somos cidadãos globais dadas as instituições já existentes (ver 3 mais à frente). Muito depende da força das nossas convicções relativamente à existência dessas instituições no que pode ser designado de “sociedade civil global” e ao quão importante é o que agora existe comparado com o esforço para a sua criação.

Comentário crítico: Embora existam contextos em que é perfeitamente apropriado alguém apresentar uma tese moral (na linha dos Estóicos), e possam haver circunstâncias futuras em que as instituições (por exemplo, um governo mundial ou formas de governança global aproximadas) possam apresentar uma defesa institucional incontroversa de carácter empírico, no mundo moderno as defesas de uma cidadania mundial resultam da combinação de componentes morais e institucionais. A tese moral diz que em princípio possuímos obrigações de um tipo global que exigem, para que se possam expressar de forma adequada, o desenvolvimento de instituições apropriadas, e a tese institucional implica que essas instituições já existam embora numa forma radicalmente incompleta.
A perspectiva ética e a perspectiva institucional devem ser objectivamente aceites (independentemente de serem ou não aceites pelos indivíduos). As pessoas podem subjectivamente afirmar-se como “cidadãos mundiais” desde que reconheçam tais obrigações e instituições. É claro que a robustez dessas instituições depende efectivamente da força do reconhecimento dessa condição. Sem dúvida que precisamos daquilo que H. G. Wells chamou de “mentalidade cosmopolita” (através da qual “consideramos uma comunidade mundial” antes de, nas palavras de John Macmurray, a intenção estar completamente actualizada (Macmurray, 1957)) e isto tem que preceder a sua concretização nas instituições (cfr. Heater, 1996). Isso é análogo à concepção moral de possuir um corpo defendida por F. H. Bradley (instituições, regras e práticas públicas partilhadas) e uma alma (vontades morais individuais) (Bradley, 1876). Há uma relação dialéctica entre as duas. Na realidade, há aqui três elementos a considerar: (i) a tese da moral objectiva feita pelo pensador, como a afirmação arrebatadora de Piet Hein de que somos “cidadãos globais com almas tribais” (Cfr. Barnaby, 1988), em que o pensador é capaz de, mesmo que só temporariamente, transcender a sua percepção limitada e ver as coisas pelo que elas são; (ii) a necessidade de uma mentalidade (as nossas almas “globais”); e (iii) a necessidade de uma representação concreta (nas relações públicas e na cultura partilhada).»

Nigel Dower, "Global Citizenship: Yes or No?", in Dower, Nigel & Williams, John (eds). Global Citizenship. A Critical Reader. Edinburgh: Edinburgh University Press, pp. 30-2 (Traduzido e adaptado por Vítor João Oliveira)