domingo, 2 de março de 2008

Oitenta anos de... lucidez e coerência! (III)

Publico a seguir a entrevista que o Prof. Dr Daniel Serrão deu ao Correio da Manhã e que foi publicada hoje. Nela ficamos a conhecer mais em pormenor o homem, a sua fé e as suas crenças éticas relativamente às questões de vida e de morte. Ficamos também a perceber porque gosta de afirmar que "nenhuma dificuldade é superior à nossa determinação de a vencer" (Público - 29/02).


«Transmontano, filho de um funcionário público, um entre três irmãos, todos brilhantes na escola, aos 80 anos o professor Daniel Serrão confessa a sua vontade imensa de viver... viver ainda muito mais tempo. Até aos 120, a duração bíblica. Ilustre cientista, participou na declaração universal do genoma humano e é membro da Academia Pontifícia para a Vida, a convite de João Paulo II.

- Que importância tem a Academia das Ciências na sua vida?

- Passei a exprimir-me num areópago fora da paróquia do Porto. Fui eleito, ao que parece, por unanimidade. Ao que parece, porque as votações são secretas.

- A sua cadeira é a número treze

- Não significa nada, porque não sou dado a esoterismos numéricos.

- Quando percebeu que queria ser médico?

- No quinto ano, quando iniciei os estudos de biologia. A minha cabeça despertou-me para o fenómeno da vida.

- Fernando Pessoa escreveu: ‘Não evoluo, viajo’. A vida é uma viagem?

- A vida acontece e realiza-se no tempo. Tudo o que acontece no tempo é uma viagem que pode ser física ou realizar-se nos nossos interiores. Por vezes dá-se uma suspensão quando uma profunda meditação nos desliga da sequência do Mundo natural e o nosso tempo interior torna-se diferente do tempo dos relógios.

- Realizará outras viagens?

- Acredito, pela intuição, que a vida dos seres humanos não é justificada apenas pelo seu corpo e cérebro. Essa parte da autoconsciência não é rigorosamente fundamentada no funcionamento do sistema nervoso central e nunca desaparecerá.

- Fala de imortalidade do espírito?

- Falo de imortalidade das criações do espírito. Algumas delas, quando as colocamos em suportes como o livro, música ou poema, ganham eternidade. Continuamos a ler Platão e a ouvir Beethoven. A criação da sua autoconsciência permanece.

- O que entende por autoconsciência?

- É o conceito moderno de espírito. O Mundo não existia enquanto não apareceu uma inteligência humana para o pensar. Estava mas não existia. São coisas diferentes. É o conhecimento do Mundo que realiza a existência do Mundo. A existência e sentido atribuídos às percepções do Mundo não morrerão nunca.

- Comunicam umas com as outras?

- (Pausa) Não sei.

- Como foi a sua infância?

- Nasci em Vila Real, onde vivi até aos dois anos. Depois, o meu pai, funcionário público, foi transferido e mudámo-nos para Viana do Castelo.

- Tem alguma recordação especial?

- Em casa havia uma edição impopular da Bíblia. Teria sete anos quando peguei no livro e, naquele tempo, Deus era representado por um velho com longos cabelos e barbas poisado numa nuvem. Aquele homem tinha-me criado e ao Mundo. Estabeleceu-se uma relação muito especial com o Barbudo e demorei muito tempo para me libertar daquela figura.

- Tem irmãos?

- Tive dois. Vivíamos numa sólida relação familiar. Metidos uns com os outros.

- Era todos bons alunos?

- Os irmãos Serrão eram muito conhecidos por estarem simultaneamente no quadro de honra da escola durante vários anos. O meu irmão mais velho atingiu o topo da carreira de engenheiro. O mais novo doutorou-se em Química e foi professor catedrático de Química Orgânica na Universidade de Ciências.

- É pai de seis filhos. Há uma crise na família?

- Pode haver crise de um certo modelo temporal de família. A história da família, ao longo dos milénios, mostra crises e transformações sucessivas. É preciso analisar se as transformações que a família está a sofrer ameaçam a sobrevivência da Humanidade.

- Ameaçam?! Hoje defendem-se vários modelos de família

- A família tem de existir nem que seja limitada à mãe e ao filho. As relações homossexuais não são famílias porque não podem ter como objectivo a gestação de filhos. São associações de pessoas que se unem por laços de afectividade e contacto sexual.

- Não é preferível que as crianças abandonadas em instituições estejam a cargo de pessoas do mesmo sexo?

- Não há demonstração científica de que a criança, sendo educada por duas pessoas do mesmo sexo, traga prejuízo significativo para a capacidade de futura escolha do objecto sexual. Desejo que prevaleça o tipo de família heterossexual.

- Entre 1974 e 76 impediram-no de exercer funções académicas e hospitalares. Foi vítima de saneamento

- Acusaram-me de várias falsidades. Uma delas que tinha denunciado estudantes à PIDE. Era antileninista e antimarxista, mas tinha as minhas ideologias.

- Um ano depois foi reintegrado

- O saneamento suscitou muita agitação entre pessoas que me consideravam respeitável e, passado um ano, fui reintegrado com todas as condições. Pagaram-me o ano em que estive sem trabalhar. O despacho do ministro foi anulado.

- Como descobriu a bioética?

- Fui convidado para leccionar a cadeira de deontologia e ensinei bioética. Nessa altura, andava a ler trabalhos que surgiam sobre a temática da bioética. Coincidiu com o primeiro seminário organizado pelo Conselho da Europa. Participei na construção da declaração universal do genoma humano como património da humanidade na UNESCO.

- Que importância tem a declaração universal do genoma humano?

- No plano de um acordo entre nações para que prevaleça o respeito pelos direitos e dignidade humanos.

- Qual é a personalidade que mais o marcou na vida?

- São tantas

- Por exemplo

- Estou na quinta forma de viver. A cada uma dessas vidas corresponde uma figura que me marcou. Aos 17 anos descobri, casualmente, Fernando Pessoa numa livraria de Aveiro. Continuo muito ligado a esse grande judeu. Ajuda-me em situações difíceis e a fugir à rotina da vida. Depois foi o Papa João Paulo II. A primeira vez que falámos senti um deslumbramento.

- Como surgiu o convite para membro da Academia Pontifícia para a Vida?

- Por anúncio apostólico num envelope que continha um outro no qual havia sido escrito ‘Sob Segredo Pontifício’ (em latim). Lá dentro estava uma carta assinada por Sua Santidade, João Paulo II, a convidar-me para ser membro.

- É um homem de fé. Como se relaciona com Deus?

- É uma relação muito pessoal e íntima. Misteriosa. Pouco formal. É uma espécie de comunicação entre o espírito que sou e essa outra forma de espírito transcendental em que acredito. Ultrapassei completamente o sujeito das barbas.

- Bento XVI está a realizar um bom magistério?

- A Igreja Católica vive muito do carisma dos Papas. O actual tem uma expressão completamente diferente do seu antecessor. É um intelectual de grande cultura teológica. Especialista na componente mais formal da Igreja. Menos adequado à afectividade.

- Mas escreveu uma encíclica sobre o amor

- Uma reflexão profundamente intelectual sobre o amor, chegando a afirmações da maior gravidade teológica. Diz que quem não reconhecer, na sua intimidade, o amor de Deus, não consegue sequer ter fé em Deus. É uma argumentação intelectual e teológica.

- Uma vez disse: ‘Entre ciência e religião, não há conflito algum'

- O conflito que existiu foi artificialmente criado. É perfeitamente possível fazer permanecer a paz entre Religião e Ciência, desde que a Ciência não se considere uma Fé e a Fé não se considere uma Ciência. A Fé não pode dizer que a Ciência não presta. Nem a Ciência dizer que a Fé é uma inutilidade.

- A medicina regenerativa é o futuro da humanidade?

- Tem um limite. Não vai conseguir dar imortalidade ao corpo do Homem. Pode permitir dar mais e melhor vida.

- De que modo?

- É um processo natural que a Medicina consegue potenciar. É sabido que o fígado regenera desde os tempos da mitologia grega. Hoje há a possibilidade de novas células nervosas serem criadas pelo organismo para reparar perdas.

- Pode conferir-se ao embrião o mesmo estatuto que se atribui ao ser humano?

- O embrião é um ser vivo da espécie humana. Está comprovado cientificamente. A questão está no tipo de estatuto que a sociedade lhe confere. É uma questão cultural.

- A sociedade portuguesa estabeleceu novos patamares

- Nunca ninguém explicou porque se criam patamares de respeito. Até certa altura, não se merece respeito nenhum; a partir da meia-noite do último dia da nona semana, já se merece. É uma decisão arbitrária tomada por motivos exteriores à biologia.

- Quando começa o direito à vida?

- Quando termina a conjugação da informação genética masculina com a informação genética feminina e está criado um novo ser vivo da espécie humana. O embrião humano, quer esteja na trompa da mulher ou no laboratório, apela a viver.

- É contra o acto de abortamento?

- O abortamento é a solução fácil. É feito à custa da vida de um ser vivo. Ninguém tem direito moral ou ético de cometer esse acto. É a revelação da pulsão de morte (Freud) que vive dentro do ser humano. A mãe é capaz de matar o filho que tem dentro de si. É possível matar um embrião porque é pequeno e não tem forma de defesa, mas já não há medo de matar uma criança acabada de nascer. É considerado infanticídio.

- E em caso de anomalias graves do feto e violação?

- Nunca critiquei a anterior lei de abortamento. Nem para casos de violação. Para esses casos, o acto de abortamento é uma intervenção médica com finalidade de tratamento.

- Muitos médicos recusam fazer abortos

- Não concordo que os médicos tenham sido utilizados para resolver um problema de incomodidade da mulher grávida. Mas as sociedades decidem. Ainda há sociedades que têm pena de morte e consideramos isso horroroso

- A criopreservação das células do cordão umbilical é importante?

- A possibilidade de se precisar das células é pequena, mas pode marcar a diferença entre a vida e a morte numa criança com uma leucemia aguda. Substitui a medula doente pelas células estaminais conservadas de forma a fazer uma nova medula.

- Se pode fazer a diferença entre a vida e a morte, os bancos de preservação não deveriam tornar-se públicos?

- Se têm utilidade, deviam ser públicos. Caso contrário, discriminam-se as crianças. Umas nascem e têm acesso a medula se pagarem; as outras não, porque os pais não têm dinheiro para pagar

- É uma posição política?

- Também podiam servir para outras pessoas, porque as células são uma reserva quase infinita.

- É optimista?

- Optimista incurável. Quando me diagnosticaram cancro, há seis anos, não tive um único momento em que imaginasse morrer dele.

- O que suporta esse optimismo?

- A Fé. Fomos criados para ser felizes. Tudo o que acontece – inclusive o cancro – é um pretexto para se ser feliz.

- Como espera chegar aos 100 anos?

- A Bíblia diz que a duração média do homem é de 120 anos. Sabe-se que o relógio biológico da espécie humana é, igualmente, de 120 anos. Portanto sou candidato.

PERFIL: DANIEL SERRÃO

Nasceu há 80 anos em Vila Real, onde viveu até aos dois anos, depois mudou-se com a família para Viana do Castelo. Irmão de um engenheiro e de um professor catedrático de Química, teve seis filhos.

ORIGEM: HEBRAICA

“O último ser humano queimado pela Inquisição em Lisboa no século XVIII chamava-se Pedro Serrão. Um antepassado. Cristão-novo. Como era uma importante figura, a Inquisição teve um acto de caridade. Primeiro, foi afogado na ribeira e, depois, queimado na fogueira. Um acto de caridade porque queimado vivo era pior do que queimado morto”, conta Daniel Serrão.

NA UNIVERSIDADE

“Quando era estudante na Universidade de Medicina do Porto foi criada uma orquestra sinfónica no conservatório, nas redondezas das instalações universitárias. Convidavam os alunos a assistir aos ensaios e ia-se em mangas de camisa. Não sabia nada de música clássica. A minha vida era bisonha e fechada. Ensaiavam Bethoveen. Nessa altura recebi a iluminação do que é a música clássica. Ainda hoje, quando oiço reproduções da quinta sinfonia e não entra no tempo próprio, apercebo-me. São milésimos de segundo. Eduquei o ouvido naqueles ensaios”, diz o professor Daniel Serrão.»

David Luban, "A Guerra contra o Terrorismo e o fim dos Direitos Humanos (Parte I)

David Luban é Professor de Direito e Filosofia no Georgetown University Law Center. É o autor de Advogados e Justiça (1988), Modernismo Legal (1994), e de inúmeros artigos de jornal e capítulos de livros.
No ensaio que começo hoje a publicar e que foi retirado de
Philosophy & Public Policy Quarterly, Vol. 22, nº 3 (Setembro de 2002), Luban defende que a actual Guerra contra o Terrorismo combina o modelo da guerra com o modelo da lei para produzir um novo modelo de acção do estado, que designa de modelo híbrido guerra-lei. Este modelo híbrido selecciona os elementos dos modelos da guerra e da lei para maximizar o uso da força letal ao mesmo tempo que elimina os direitos tanto dos adversários como dos observadores inocentes. O resultado é que a Guerra contra o Terrorismo significa o fim dos direitos humanos.

“No rescaldo do 11 de Setembro, o Presidente Bush afirmou que os seus perpetradores deviam ser apresentados à justiça. Pouco depois, o Presidente anunciou que os Estados Unidos iriam iniciar uma guerra contra o terrorismo. A primeira destas afirmações adopta a linguagem familiar do direito e da justiça criminal. Trata os ataques do 11 de Setembro como crimes horríficos - assassínios em massa – e a missão do governo é apanhar e punir os estrategas e conspiradores sobreviventes pelo papel que tiveram nestes crimes. A Guerra contra o Terrorismo é, contudo, algo diferente e implica um modelo de acção governamental distinta – não o direito, mas a guerra. O óbvio é que alarga dramaticamente o âmbito da acção, uma vez que agora os terroristas que nada sabiam sobre o 11 de Setembro passam a ser rotulados de inimigos. Mas isso é apenas o começo."

Haig Khatchadourian, "A Moralidade do Terrorismo" (Parte VI)

"Dos quatro tipos de terrorismo, o predatório, o retaliatório e o moralista/religioso são os que se afastam claramente da condição da causa justa, compreendida – laconicamente - como o uso auto-defensivo da força. É concebível que alguns actos do terrorismo moralista e político-moralista possam satisfazer esta condição. É claro que estes três tipos de terrorismo violam esta condição.
Comecemos pelo terrorismo predatório, um tipo de terrorismo motivado pela ganância. Tal como os actos “comuns” de assalto à mão armada, que são o correlativo do terrorismo, o terrorismo predatório é um crime e é moralmente errado. Ambos causam terror e atacam onde possa ocorrer sofrimento indiscriminado. Com efeito, os grupos armados que fazem reféns como forma de conseguir um carro ou um avião para fugir, possuem uma semelhança adicional com o terrorismo. Esta pode ser observada no próprio terrorismo predatório, particularmente se for sistemático e não ocasional, uma vez que tanto o terrorismo político como o moralista tendem a ser sistemáticos […]. Mesmo então, os assaltos à mão armada que envolvem reféns, devem ser distinguidos do tipo de assalto armado que os terroristas políticos e moralistas podem realizar para conseguir dinheiro para os seus fins políticos/moralistas/religiosos particulares.
Ainda assim, é inquestionável que o terrorismo predatório (e até o retaliatório) é frequentemente assistemático; tal como os assaltos à mão armada comuns, pode ocorrer apenas uma vez. Alguns sequestros de aviões bastante conhecidos ocorridos nos Estados Unidos, que visavam obter ganhos monetários, foram incidentes ocasionais, embora, segundo sei, em todas as situações, excepto numa, isso tenha sido assim porque os sequestradores foram presos!
Tal como o terrorismo predatório, o terrorismo retaliatório pode ou não ser sistemático. O terrorismo internacional inclui habitualmente uma política sistemática de retaliação contra um estado inimigo odiado ou contra os seus cidadãos. Um exemplo notório de terrorismo retaliatório aconteceu há alguns anos contra o Estados Unidos e os seus interesses, e foi patrocinado pela Líbia, pela Síria e/ou pelo Irão.
O mais importante para a presente discussão, é que o terrorismo retaliatório viola, entre outras regras morais, a condição da causa justa e os princípios da justiça e é, consequentemente, mau. A retaliação não é senão um outro termo (mais eufemístico?) para vingança, o qual é incompatível com a auto-defesa bem como com um processo justo. E isso não será menos verdade se o terrorismo retaliatório for praticado por um país durante a guerra na tentativa de se defender de uma agressão. Por exemplo, se algo for atentado contra a vida do chefe do estado agressor pelos agentes do estado agredido como forma de retaliar os ataques no seu território, a tentativa de assassinato será (a) um acto de terrorismo se pretender pressionar as forças militares do agressor a por fim à agressão. Mas apesar do seu objectivo e do facto do estado agredido o percepcionarem como uma parte da sua auto-defesa, continua a ser (b) um acto de retaliação, não um acto de auto-defesa.
O que disse sobre o terrorismo predatório e retaliatório relativamente a causa justa, aplica-se ao terrorismo político não-moralista, ao terrorismo cujos objectivos políticos não são morais. Um exemplo deste tipo ocorre quando um grupo revolucionário se empenha em actos de terrorismo contra um governo legítimo democraticamente eleito para o derrubar e conquistar o poder.
Por definição, o terrorismo moralista satisfaz a condição da causa justa se a “causa justa” for interpretada de forma lata, isto é, passando a querer dizer causa moralmente justificável. Por exemplo, o terrorismo político no sentido estrito de um movimento de libertação nacional contra um ocupante externo ou contra um regime indígena opressivo. Pode ainda satisfazer a condição da intenção correcta. Por isso, vou virar-me agora para as outras duas condições da guerra justa que mencionei anteriormente, para determinar se um tal terrorismo pode ser moralmente justificável."

sábado, 1 de março de 2008

Oitenta anos de... lucidez e coerência! (II)

Por razões várias e óbvias, tinha que publicar mais este artigo do Diário de Notícias sobre o Prof. Dr Daniel Serrão. Aqui vai:


"Médico patologista, que hoje festeja 80 anos, prepara livro de memórias.
No ano em que Daniel Serrão nasceu, vieram ao mundo figuras marcantes da História, entre elas o escritor Gabriel García Márquez, o revolucionário Che Guevara e James Dewey Watson, um dos descobridores da estrutura do ADN. Mas, de todos, nenhum se opõe de forma tão marcante ao pensamento do professor português como Jack Kevorkian, o "pai da morte", o médico norte-americano, também patologista, defensor acérrimo da morte assistida. Um acto que para Daniel Serrão é uma monstruosidade. "A forma mais indigna de morrer é ser morto por outra pessoa", disse ao DN gente, poucos minutos após ter chegado do Vaticano onde participou, até quinta-feira, na reunião anual da Academia Pontifícia para a Vida, encontro que conta sempre com a presença do Papa. Defensor da vida, Daniel Serrão não aceita nenhum acto que atente contra ela. E é peremptório a afirmar que "discutir a eutanásia hoje em dia não faz sentido, pois a resposta para o sofrimento das pessoas está nos cuidados paliativos". Cuidados que têm de ser melhorados e onde o Estado e a sociedade civil têm de participar mais activamente. "A vida é um dom de Deus que ningúem pode tirar", considera.

Um ano após a vitória do "sim" no referendo ao aborto, Daniel Serrão continua a achar demagógicos os argumentos dos defensores do fim da gravidez a pedido da mulher. E considera que "o médico abusa da profissão quando faz um aborto".

O passar dos anos não lhe diminuiu o ânimo e o entusiasmo na defesa de grandes causas. Também por isso, a Universidade Católica e o Instituto de Bioética prestam-lhe hoje uma homenagem no campus da Foz.

Daniel dos Santos Pinto Serrão nasceu em Vila Real, mas passou a infância e juventude em várias localidades, até se fixar, definitivamente, no Porto. Esta itinerância deve-se ao facto de o pai - um engenheiro do Estado que tinha sido chefe de gabinete do ministro do Comércio Nuno Simões, antes da implantação da República - não ser um adepto do Estado Novo. "Era constantemente transferido de cidade para cidade", revelou. Isso está patente no seu currículo. Frequentou os liceus de Viana do Castelo e de Coimbra, tendo concluído o curso geral dos liceus em Aveiro, com 18 valores. É nesta cidade que termina o Curso Complementar de Ciências, também com 18 valores. E em 1951 termina o curso de Medicina, com média final de 17 valores, na Universidade do Porto.

Decidido a enveredar pelo ensino, doutora-se em 1959, com 19 valores. Em 1961 concorre a professor extraordinário de Anatomia Patológica, sendo aprovado por unanimidade. No ano de 1967 é mobilizado para Luanda, onde esteve dois anos a prestar serviço no Hospital Militar como anátomo-patologista.

De regresso à metrópole, concorre a professor catedrático, em 1971, tendo sido aprovado por unanimidade, assumindo depois a direcção do Serviço Académico e Hospitalar de Anatomia Patológica.

Com a queda do Estado Novo vieram alguns dissabores. Apesar de nunca se ter metido em política, foi acusado de ter denunciado estudantes comunistas à PIDE. Esta acusação levou a que a 23 de Junho de 1975 - em pleno "Verão quente" - o então ministro da Educação, por despacho, o demitisse das funções de professor universitário e de director (por inerência) de Serviço Hospitalar. "Uma crueldade resultante de uma acusação completamente falsa", disse. "Nunca fui comunista, mas também nunca denunciei ninguém. Aliás, a política não me seduz minimamente e , entre os meus amigos, tenho alguns comunistas." A acusação "era tão ridícula que ninguém no S. João aceitou substituir-me", contou.

Esta demissão abrupta de todas as funções remuneradas, as únicas que tinha, colocou-o numa posição financeira complicada. "De um momento para o outro, fiquei numa situação difícil. Se não trabalhasse teria de ir pedir esmola para me sustentar a mim, à minha mulher e aos meus seis filhos."

Mas a sua fé ajudou-o a superar esta "injustiça" perpetrada por "um fantoche que servia de ministro". Dez dias bastaram para que iniciasse a actividade profissional privada, montando um laboratório de Anatomia Patológica em sua casa, com a ajuda de colegas. No dia em que abriu, teve logo os primeiros clientes, entre os quais os estabelecimentos estatais que até aí servia. De Julho de 1975 até Dezembro de 2002 realizou 1,6 milhões de exames histológicos e citológicos para hospitais públicos e para clientes privados.

Um ano após ter sido saneado, é reintegrado, tendo o despacho sido anulado por manifesta carência de qualquer fundamento, tendo-lhe sido pagos os vencimentos dos 12 meses durante os quais foi impedido de exercer as suas funções académicas e hospitalares. Reassumiu, mas só formalmente, as funções, "pois na essência da minha missão de professor havia uma transformação radical".

Este episódio da sua vida vai ser relatado em livro. Saneamento Político Exemplar - 33 Anos Depois é o livro que vai lançar este ano, pela mão de Zita Seabra. "Vou contar o que realmente aconteceu."

O livro "está a ser ultimado" e "será lançado no dia 23 de Junho, exactamente 33 anos após ter sido demitido de todas as minhas funções" na sequência do 25 de Abril.

Pai de dois rapazes (um já falecido) e quatro raparigas, encontra em Deus e na família o seu suporte. Todos os domingos almoçam em sua casa. Mesmo o mais "atarefado", o mediático Manuel Serrão."

Oitenta anos de... lucidez e coerência! (I)

O Departamento de Ciências Humanas da ESOB vai promover, no dia 29 de Maio, o debate "Será a eutanásia moral?". Para defender o SIM, estará presente o Prof. Dr Pedro Galvão e, para defender o NÃO, estará presente o Prof. Dr Daniel Serrão(1), que faz hoje 80 anos. A ESOB não ficou indiferente a este facto e já lhe enviou os votos de feliz aniversário, até porque, como diz um artigo do Público de ontem, "celebrar oitenta anos é sempre uma festa, e quando essa vida é extraordinária a festa parece ainda maior. Daniel Serrão pertence àquela casta lúcida e privilegiada de homens que mantêm uma actividade intelectual fecunda, uma condição física invejável e um espírito aberto raro, raríssimo. Homens como ele, há poucos".
O Qualia junta-se à festa e publica a seguir a entrevista que o Prof. Dr Daniel Serrão dá hoje ao Jornal de Notícias.

"Daniel Serrão faz hoje 80 anos. Que juntam numa só muitas vidas diferentes. A do jovem amante de poesia, a do estudante cego, a do professor dedicado, a do especialista em anatomia patológica. E a mais conhecida, na defesa da ética. Membro dos Comités de Bioética do Conselho da Europa e da Unesco, da Academia Pontifícia para a Vida e do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, lutou contra a legalização do aborto. E defende a clara separação entre ética e religião. Ah! E detesta publicidade…
A energia transbordante não o deixa respeitar as regras. É ele quem começa a entrevista. “Sabe que até me dava satisfação as pessoas não saberem as coisas que fiz? Nunca gostei de publicidade. O que é importante amanhã (hoje) é o anúncio da criação do primeiro doutoramento em Bioética em Portugal. Não é eu fazer 80 anos”. Daniel Serrão falou connosco ontem, entre telefonemas a desvalorizar a homenagem que a Universidade Católica lhe preparou. “O doutoramento tem professores de grande categoria, excluindo eu. É um curso de três anos, sério, difícil. Sou um dos professores”. E deixa-nos, finalmente, a hipótese de colocarmos uma pergunta.

JN - Há dez anos, disse que os 70 anos eram a idade da morte civil em Portugal. Aos 80 anos, vai dar aulas. Não morreu civilmente…

Daniel Serrão - Não! Não morri! Bem quiseram matar-me, mas não. E, olhe, vou publicar um livro sobre essa tentativa. Chama-se “Um saneamento político exemplar – 33 anos depois”. Espero que saia mesmo no dia 23 de Junho, em que faz 33 anos que fui demitido (por não se submeter, palavras do próprio, a “interesses mesquinhos e conluios meramente políticos). Fui reintegrado ao fim de um ano e pago por aqueles meses em casa. Olhe, alguma publicidade que saiu como meu nome foi precisamente no JN. Escreveram que milhares de alunos me tinham obrigado a demitir. Tiveram que publicar um desmentido. Foram 722 pessoas e eram estudantes, professores e funcionários…

Também escreveu que “cada homem é feito de muitas vidas, umas melhores, outras piores”.
Acho que já tive muitas também. A primeira vai até ao fim da adolescência, 16-17 anos, estava em Aveiro, cidade pequena, a tirar o curso do liceu. Já na altura era conhecido. Tinha o meu nome no quadro de honra – agora, não há, qualquer indivíduo é bom. Foi uma vida simples, numa família modesta. Não tinha dinheiro para livros. Mas em frente ao liceu havia a biblioteca municipal. No Inverno estava aberta à noite, das nove às onze. Eu era o único leitor! O guarda dava-me o livro e adormecia e às onze certas, os morcegos da torre saíam em alarido. O homem acordava e eu tinha que sair. No Verão lia no sossego dos patos, no parque.

Uma vida de livros.
Muitos dos poemas que li nessa altura ainda hoje sei de cor.

Não tem nas estantes do escritório nenhum desses livros…

(Levanta-se e regressa com dois volumes amarelecidos pelos anos. Fernando Pessoa e Álvaro de Campos, edição de 1952, oferta do irmão). Entrei numa livraria – isto passa-se em 1949 –, vi um livro e abri ao acaso. Descobri um poeta que não conhecia e depois engalinhei que o soneto que estava a ler estava errado, os dois tercetos não correspondiam, não fazia sentido. Estavam trocados com o soneto seguinte. Mas o importante foi isto. “Narrei-me à sombra e não me achei sentido/ hoje sei-me o deserto onde Deus teve/ outrora a sua capital de olvido” (Passos da Cruz X). Era a descoberta de que há outra forma de usar as palavras. A capacidade de nos vermos a nós próprios como o outro… (Atende o telefone, brinca com as fotos com o papa João Paulo II que tem no seu site na Internet – “Os dois a envelhecer, só que ele já morreu e eu não. Faço 80 anos amanhã. Ouvi dizer que me iam fazer uma homenagem”)

Aí mudou para outra vida?
Passei para uma vida de bisonho estudante de medicina. Lembro-me que fiquei furioso com um 15 e fui tirar satisfações com o professor. Não fazia mais nada senão estudar, vivia em quartos manhosos. Era uma vida obscena, não namorava raparigas, não ia ao cinema. Formei-me com perto de 19 valores. Acabada esta vida, inicio a de docente. Para me abrir e começar a deitar cá para fora, para os outros, aquilo que aprendi. Até ser professor catedrático, o que acontece em 1970.

E até ser exemplarmente saneado…
Ainda houve um episódio de vida intermédia, entre a vida de professor e o início como director de serviço no hospital. Fui capitão miliciano médico em Angola. Entrei na ‘vida militar’, que é uma forma especial de viver, de relações humanas. Passei a ter de fazer a continência a quanto major passasse, nem que fosse burro como um soco. Depois veio a direcção de serviço, em que a missão era fazer dos outros os melhores. Algum do respeito que as pessoas têm por mim vem daí, mesmo na altura do despedimento. Fiquei humilhado! Eu que dei tudo por esta porcaria desta Nação. Aquele Governo de antes era legitimado. E no fim dão-me um par de coices? Nunca mais! Os governos, todos, hoje, não me interessam. Não valem o dinheiro que nos custam! Comecei a dar à faculdade o tempo que me sobrava da actividade privada.

Outra vida?
Sim. Lia muita ciência. Quando fechei o laboratório (de anatomia patológica), há cinco anos, sobrou-me aparentemente o tempo todo. E passei a ler bioética, antropologia, filosofia. Foi outra vida. Muito activa.

Uma vida ligada a Deus, à Igreja, a Roma, é outra?
Não. Eu tenho fé, que é ela própria um acontecimento da intimidade de cada um e não tem explicação. Depois a Igreja Católica constitui uma formalização burocrático-administrativa dessa fé na qual estou incluído por viver aqui, em Portugal. Hoje tenho fé, amanhã não sei, não depende da nossa vontade.

Teve sempre?
Até agora tem funcionado. Actualmente, a maior parte das formulações burocrático-administrativas da fé servem, o que não quer dizer que não haja posturas da Igreja formal que são desagradáveis.

Por exemplo?
Quando vou à missa e o padre lê textos incompreensíveis para 99% das pessoas. Entendiam no tempo em que foram escritos. Hoje não fazem sentido na cabeça de ninguém. Deveria haver um grande esforço no sentido de actualizar o ritual litúrgico… (atende mais um telefonema. “As homenagens devem ser prestadas às pessoas depois de elas morreram, porque em vida servem para alimentar narcisismos bacocos”)
Ao cabo de tantas vidas, diria que a sociedade hoje está melhor ou pior do que antes? Sempre melhor. Não há sociedade que não tenha simultaneamente capacidades e riscos. A nossa obrigação é minimizar os riscos e potenciar as capacidades.


Mas hoje legalizou o aborto, caminha-se a passos largos para a permissão da eutanásia, pesquisa-se em embriões…
Aborto houve sempre. A única coisa que posso dizer é que hoje temos muitas condições para que o abortamento possa acabar. A contracepção hormonal tornou-o um absurdo.

Essa parte piorou, portanto…
Nesse aspecto, a sociedade piorou. Porque não há situações em que a mulher tenha legitimidade para dizer que não quer, depois de estar grávida. Tem que dizer antes. Se fica é porque quer ou está-se nas tintas. E se se está nas tintas, não merece consideração alguma da sociedade.

E a eutanásia?
Também houve sempre a ideia de que, a dada altura da vida, o melhor a fazer por uma pessoa é matá-la. Há aquela história popular do filho que leva o pai para o cimo do monte para morrer de fome. Dava-lhe uma manta para não ter frio. E o pai pediu ao filho para cortar a manta a meio. “Para dares ao teu filho quando ele te vier trazer cá”. Não estamos autorizados a fazer aos outros aquilo que não queremos que nos façam a nós. Não interessa discutir a eutanásia, interessa discutir os cuidados paliativos e perguntar à ministra da Saúde quando é que desenvolve os cuidados paliativos domiciliários. Porque as dores são tratáveis, a vida até à morte pode ser digna e feliz.

A evolução da genética não obriga a mudar o conceito de ética?
De um modo geral, a genética é benéfica. Só uma pequena parte do ser humano é condicionada pela informação genética. A diferença é que, quanto mais sabemos sobre o homem, mais aprofundada é a reflexão ética. Porque é a ética é descritiva, não deliberativa. Propõe soluções. Se fosse deliberativa, transformava-se em poder e ficaria condenada à morte. E hoje está em crise porque quer os políticos, quer as religiões querem apoderar-se dela.

As religiões?
Veja o que se passa com o islamismo. Passou a ser ética aquilo que entende que deve ser feito. Mas a nossa obrigação é ver qual a melhor solução ética para uma dada questão. Se não estiver de acordo com a religião, aí opta-se. A ética não pode ser confundida com religião.

O que nos leva a perguntar-lhe o que defende na Academia Pontifícia quando se aborda o preservativo…
É um absoluto falso problema. Aquilo que a Igreja tem dito é que o uso do preservativo para tornar uma relação sexual numa relação infértil é moralmente inaceitável. O que não tem nada a ver com a utilização numa relação sexual para obtenção de prazer sexual. A Igreja não se mete nas relações sexuais promíscuas que acontecem nas casas de prostituição. Primeiro nem são católicos. As normas morais da Igreja só se aplicam às pessoas que aceitam a fé católica.

Mas e se um dos cônjuges…
for seropositivo, é obrigado a usar o preservativo. Porque é para evitar a infecção do outro.

Não é essa a posição que transpira cá para fora.
Não é o que dizem os jornalistas, não. Nem o que diz o Expresso, que pôs um cartoon do papa com um preservativo no nariz. Se fosse muçulmano, já não havia Expresso.

Por falar em papas, já cotejou dois.
São diferentes. João Paulo II privilegiou a relação humana, o amor entre os seres humanos em geral como regra de convivência pacífica. Bento XVI tem uma concepção mais filosófica do que afectiva. É a pastoral da inteligência, depois da pastoral da emoção.

Melhor ou pior?
Utilíssimo para a Igreja nesta fase. Os que se deixam movimentar pela e emoção já foram movimentados. Agora vamos movimentar os intelectuais."


(1) Daniel Serrão, Professor Catedrático de Anatomia Patológica, espcialista em Ética da Vida e um dos "pais" da Bioética em Portugal.



sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Haig Khatchadourian, "A Moralidade do Terrorismo" (Parte V)

"A Moralidade do Terrorismo e a Teoria da Guerra Justa
Embora a bibliografia sobre o terrorismo esteja constantemente a crescer, pouco tem sido escrito sobre a moralidade do terrorismo; talvez porque os escritores tenham dado como garantido que o terrorismo é um flagelo, sempre moralmente repreensível e errado: observe-se por um instante a associação que habitualmente se faz entre terrorismo e assassínio. […]
Este não é um começo auspicioso para a avaliação moral do terrorismo. Do facto dos actos terroristas, incluindo a morte de vítimas imediatas, serem proibidos na maior parte, senão em todos os sistemas legais, não se segue que tais actos sejam moralmente errados. Ao chamar “assassinato” às mortes terroristas está-se a fugir às complexas questões éticas envolvidas…
Saber (…) se alguns actos terroristas (…) são moralmente justificáveis é uma questão importante que será discutida relativamente à teoria da guerra justa. […]
As condições tradicionais da guerra justa são de dois tipos: as condições que justificam a guerra (jus ad belum) e as condições da condução justa na guerra (jus in bello). Uma das suas condições fundamentais é que:

A destruição da vida e da propriedade, mesmo da vida e da propriedade do inimigo, é inerentemente má. Segue-se que as forças militares não devem provocar mais destruição do que aquela que é estritamente necessária para alcançar os seus objectivos. (Veja-se que o princípio não diz que tudo o que é necessário é permissível, mas que tudo o que é permissível deve ser necessário). Este é o princípio da necessidade: a destruição cruelmente destrutiva é proibida. O princípio da necessidade especifica, mais precisamente, que uma operação militar é proibida se houver alguma operação alternativa que cause menos destruição, mas que possua a mesma probabilidade de produzir um resultado militar bem sucedido.
[1]

Uma outra condição fundamental é o princípio da discriminação ou da imunidade dos não-combatentes, que proíbe o dano deliberado – sobretudo a morte – de pessoas inocentes. Em A teoria da Guerra Justa, William O’Brien define esta condição como o princípio que proíbe ataques directos intencionais a não-combatentes ou a alvos não-militares”
[2], e Douglas Lackey, em A Ética da Guerra e da Paz, caracteriza-o como “a ideia de que (…) a vida e a propriedade civil não devem estar sujeitas à força militar: a força militar deve dirigir-se apenas a objectivos militares”[3]. Uma terceira condição fundamental é o princípio da proporcionalidade “aplicado a fins militares discretos”[4]. Esta condição é definida por William O’Brien como a “obrigação de adequar a proporcionalidade dos meios aos fins políticos e militares”[5]. Ou, como defende Lackey, é a ideia de que a “quantidade de destruição permitida na perseguição de um objectivo militar deve ser proporcional à importância do objectivo. Este é o princípio militar da proporcionalidade (que se deve distinguir do princípio político da proporcionalidade na jus ad bellum).”[6]
A minha alegação é que estes três princípios, devidamente modificados e adaptados, são aplicáveis por analogia a todos os tipos de terrorismo e que estes os violam a todos de forma flagrante. Com efeito, todos os tipos de terrorismo, excepto o terrorismo moralista/religioso, violam uma outra condição da teoria da guerra justa. Refiro-me à primeira e mais importante condição da jus ad bellum e a uma das mais importantes condições da guerra justa em geral: a condição da causa justa. […]"


[1] Douglas P. Lackey, The Ethics of War and Peace (Englewoods Cliffs, NJ, 1989), 59. Itálico no original.
[2] William O’Brien, “Just-War theory”, in Burton M. Leiser, Liberty, Justice, and Morals, 2nd ed. (New York), 39. Esta secção é em larga medida a reprodução das secções III-IV de H. Khatchadourian, “Terrorism and Morality”, Journal of Applied Philosophy, 5, nº 2 (1958), 134-143.
[3] Lackey, Ethics, 59.
[4] Ibid., 37.
[5] Ibid., 30.
[6] Ibid., 59. Itálico no original.

Ética e Política no Ciberespaço

O ciberespaço é o espaço comunicacional virtual criado pelas tecnologias digitais. Não está limitado às operações das redes computacionais, já que implica todo o tipo de actividades sociais em que se utilizam tecnologias digitais da informação e da comunicação (TIC), desde sistemas de computacionais até cartões de memória. Com a introdução de elementos digitais num número cada vez maior de objectos (desde os microondas até aos ténis), estes adquirem funções inteligentes e capacidades comunicacionais dando origem a um campo virtual vital permanente.
Mas a maioria dos debates actuais no âmbito das TIC não é apenas técnico. É também e em diferentes níveis, um debate ético e político. Será o ciberespaço terra de ninguém? Será possível uma governança do ciberespaço? O espectro de respostas é bastante amplo. Existe a posição anarquista radical que considera o ciberespaço um território completamente novo relativamente ao qual as regras morais convencionais são completamente desajustadas. Como se afirma na Declaração de Independência do Ciberespaço (1996) “não temos governo eleito, nem é provável que venhamos a ter, pelo que a autoridade máxima é a que é ditada pela própria liberdade individual. Declaramos que o espaço social global que estamos a criar é naturalmente independente das tiranias que nos querem impor… o ciberespaço não está confinado às fronteiras nacionais… é um acto de natureza que se multiplica através das nossas acções colectivas”. Ora, como se pode ver, a consequência desta visão libertária é que nenhum governo é um bom governo. Mas, por mais atraente que esta perspectiva seja, quanto maior for a utilização do ciberespaço, maior será a necessidade de uma regulamentação pública e comum. O mesmo se verifica em relação ao facto de ser cada vez mais urgente proteger o ciberespaço de actividades criminosas. Mais ainda, a tecnologia do ciberespaço cria de facto uma realidade virtual, mas isso não é suficiente para a autonomizar da política do mundo real.
Em oposição à posição anárquica radical, está a posição de governos que propõe um conjunto de actividades restritas para o ciberespaço, com vista a controlar não apenas a difusão da indústria da pornografia e de grupos neo-nazis, mas também para proteger os utilizadores de piratas e de todos os que desenvolvam actividades politicamente subversivas. Existem cidadãos do ciberespaço que acreditam sinceramente no auto-policiamento e discutem entre si toda uma variedade de formas de auto-vigilância que vão desde a criação de software de controlo parental, até aos ciberanjos e códigos de cortesia e de conduta.
Na medida em que o ciberespaço é percebido pelos seus utilizadores como a última fronteira electrónica e na medida em que este coloniza a nossa realidade não-virtual, torna-se necessário ser governado por normas e regras. Uma questão recorrente é saber se o ciberespaço pode dar origem a novas formas [democráticas] de governo electrónico, menos territoriais, menos hierarquizadas e menos participativas, que exijam um novo tipo de regras para a acção política.
Seja qual for a posição que se assuma relativamente à governança futura do ciberespaço, não é possível negar que, em qualquer caso, há efectivamente escolhas morais a fazer e há escolhas morais que estão efectivamente a ser feitas, uma vez que a proliferação das tecnologias do ciberespaço não as isenta de dimensão moral. As questões morais são, por isso, diversas e relacionam-se com escolhas sobre o próprio desenvolvimento das tecnologias, sobre aplicações possíveis, sobre a responsabilidade de certas aplicações e sobre a introdução e uso das aplicações. Também envolvem questões sobre a distribuição desigual dos custos e benefícios das aplicações pelos actores sociais, sobre o controlo das tecnologias e da sua administração, e sobre a incerteza do impacto futuro da tecnologia.
No presente, as práticas e as instituições que aspiram ao governo universal do ciberespaço são perfeitamente desadequadas para a necessária humanização das futuras sociedades da comunicação e da informação. A natureza da governança global que é necessária exige a intervenção de movimentos cívicos, que, apesar de inspirarem iniciativas globais, é um processo lento relativamente à velocidade vertiginosa da expansão do ciberespaço e à complexificação das relações sociais nesse espaço. Os cidadãos encontram-se, por isso, numa verdadeira encruzilhada, mas será que estão em condições de decidir bem? Esta questão exige tempo e reflexão, só que o tempo é escasso e os riscos são reais. A questão específica que nos deve preocupar é saber se os padrões dos direitos humanos universais podem ou não fornecer uma orientação moral significativa e consistente para construir rapidamente a governança do ciberespaço. Porquê? Respondem os cépticos pessimistas: porque não queremos uma nova caixa de Pandora.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Laurie Calhoun, "A Mensagem Tácita do Terrorismo" (Parte VII)

"Descobrimos então que os terroristas estão interessados em dois tipos de mensagens. Primeiro e isto é habitualmente a única pretensão à verdade reconhecida por todos os outros, o terrorista alega que existem injustiças sociais. Em muitos casos pode haver alguma verdade nas alegações específicas feitas pelos grupos terroristas, e isso seria suficiente para os virar contra todos aqueles que beneficiam do regime que está no poder. Mas a própria conduta dos terroristas coloca-nos perante um segundo tipo de verdade. Talvez exista algo profundamente errado não só em algumas das políticas específicas da nossa sociedade, mas também na forma como concebemos o uso institucionalizado da força mortífera, a actividade da guerra, como um meio aceitável de resolução de conflitos.
As conotações associadas ao “terrorismo” são fortemente pejorativas e, embora os terroristas operem claramente a partir daquilo que consideram ser moral, são frequentemente sujeitos a uma condenação muito mais poderosa do que os assassinos não-políticos. Mas os assassinos que rejeitam a própria ideia de moralidade parecem ser piores inimigos da sociedade do que os terroristas políticos, que são motivados primariamente por considerações morais. Então porque será que as pessoas temem e odeiam tão intensamente os terroristas? Talvez por reconhecerem de alguma forma que os terroristas têm de facto operado segundo formas que essa sociedade implicitamente desculpa e até encoraja. Talvez as pessoas sejam meras sombras de si próprias e das actividades dos terroristas.
Se é verdade que os terroristas se vêem a si próprios como defensores da justiça, então a menos que a atitude relativamente à guerra assumida pela maior parte dos governos do mundo mude radicalmente, deve esperar-se que o terrorismo continue a existir. A proliferação dos conflitos é proporcional à dos grupos e algum subconjunto das partes do conflito acabará eventualmente por recorrer à força mortífera, com base naquilo que eles, em conjunto com a maioria da população, consideram a respeitabilidade da “guerra justa”. As soluções militares já não são usadas por nações estáveis mesmo “em último recurso”. Tragicamente, a disponibilidade imediata de armas mortíferas e a presunção disseminada de que o uso dessas armas é com frequência moralmente aceitável, se não obrigatório, resultou num mundo em que os seus líderes pensam frequentemente em primeiro lugar, mas não em último, em soluções militares para os conflitos. Esta disponibilidade para recorrer a meios mortíferos contribuiu indiscutivelmente para a escalada de violência no mundo contemporâneo em graus diversos, sendo os mais assustadores para as pessoas os que envolvem acções imprevisíveis de grupos facciosos, “os terroristas”. Mas os líderes das nações estabelecidas iludem-se ao pensar que podem sufocar o terrorismo através de ameaças e da proliferação de armas. O terrorismo “inova-se” ao transformar em alvos militares o que habitualmente se consideravam alvos não-militares. Não há razão para acreditar que a capacidade de inovação dos terroristas será frustrada através da construção de um sistema de mísseis anti-balísticos ou da implementação de outras iniciativas baseadas em estratégias e práticas militares convencionais.”


Laurie Calhoun, "The Terrorist's Tacit Message" in White, James E. (2006). Contemporary Moral Problems: War and Terrorism. Belmont: Thompson Wadsworth, pp. 47-53 (Traduzido e adaptado por Vítor João Oliveira)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Será a eutanásia moral?

Pedi aos meus alunos que lessem o caso seguinte:

“A 24 de Fevereiro, o filho do casal H. T. Houle morreu, no Centro Médico do Maine, na sequência de uma operação cirúrgica de emergência ordenada pelo tribunal. A criança nascera a 9 de Fevereiro, horrivelmente deformada. Tinha malformações em todo o lado esquerdo; não tinha olho esquerdo, faltava-lhe praticamente a orelha esquerda, tinha a mão esquerda deformada; algumas das suas vértebras não estavam fundidas. Além disso, sofria de uma fístula traqueo-esofágica e não podia ser alimentada pela boca. O ar escapava-se-lhe para o estômago, em vez de seguir para os pulmões. Como referiu o Dr. André Hellegers…, “Não é preciso grande imaginação para pensar que haveria mais deformações internas…”
Com o passar dos dias, o estado da criança piorou. Surgiu uma pneumonia. Os seus reflexos tornaram-se mais fracos e, devido à circulação deficiente, surgiram suspeitas de lesões cerebrais graves. A fístula traqueo-esofágica, a ameaça imediata á sua sobrevivência, pode ser corrigida com relativa facilidade mediante cirurgia. Mas, tendo em atenção as complicações e deformidades associadas, os pais recusaram-se a dar autorização para a intervenção cirúrgica do “Bebé Houle”. Vários médicos do Centro Médico do Maine tinham uma opinião diferente e apresentaram o caso em tribunal. O Juiz do Tribunal Superior do Maine, David G. Roberts, ordenou que se realizasse a cirurgia. Foi este o teor da sua decisão: “No momento do nascimento com vida, existe um ser humano que tem o direito à mais ampla protecção legal. O mais fundamental de todos os direitos de que goza qualquer ser humano é o direito à própria vida.”


Depois pedi-lhes que respondessem à questão: Será a decisão do Juiz do Tribunal Superior moralmente justificável? Porquê?
Disse-lhes que a resposta devia ser dada através de ensaio e que devia respeitar escrupulosamente, entre outros aspectos, a bibliografia indicada (sob pena de penalização significativa).
Os objectivos desta tarefa são:
a) Identificar e esclarecer o problema de ética aplicada que o caso levanta;
b) Identificar e esclarecer os problemas conceptuais relacionados com os conceitos centrais do problema de ética aplicada que o caso levanta;
b) Identificar, apresentar e discutir as TESES e ARGUMENTOS centrais das posições que respondem ao problema de ética aplicada identificado e esclarecido;
c) Tomar posição de forma consistente, autónoma e crítica.
Oportunamente apresentarei os ensaios mais consistentes.

Laurie Calhoun, "A Mensagem Tácita do Terrorismo" (Parte VI)

"A maioria das nações avançadas que têm exércitos permanentes produz e exporta os tipos de armas mortíferas usadas pelas facções nas acções terroristas. Se restringirmos o uso do termo “terrorista” àqueles grupos que utilizam uma violência mortífera “para além do razoável” para qualquer sistema legal estabelecido, segue-se que os terroristas obtêm as suas armas de instituições e indústrias militares mais formais (e legais). Tem-se verificado que é impossível controlar o tráfico de armas convencionais através do qual pilhas de armas são transferidas de regime para regime com o patrocínio de alguns governos para grupos pequenos com os quais se identificam politicamente. E mesmo quando escândalos como o Irão-Contra são descobertos, a responsabilização dos agentes culpados é quase sempre nominal. A indulgência relativamente aos militares e aos líderes políticos que se envolvem ou patrocinam o patriotismo através do comércio ilegal de armas, resulta da presunção básica da maior parte das pessoas, isto é, que eles e os seus companheiros são bons, enquanto que aqueles que com eles discordam são maus.
Nalguns casos, os terroristas desenvolvem armas inovadoras através do uso de materiais que em princípio não possuem qualquer aplicação militar, por exemplo, o ácido sulfúrico ou nitrato de amónio. Dada a possibilidade de os grupos terroristas recorrerem a formas de destruição inovadoras, parece que o apoio dos líderes nacionais à ideia de que matar seres humanos pode consistir num mandato da justiça é mais decisivamente instrumental para a perpetuação do terrorismo do que a exportação de armas mortíferas. As campanhas de bombardeamento ilustram graficamente a aprovação dos governos ao uso da força mortífera. É de facto fácil compreender o que deve ser o chavão comum entre os membros de grupos dissidentes que adoptam meios violentos: “Se eles podem fazê-lo, por que não nós?”
Os grupos políticos possuem uma agenda própria e alguns deles usam estrategicamente a violência para tentar alcançar os seus objectivos. Os terroristas não se situam, de um ponto de vista intelectual e moral, “para além do razoável”, uma vez que os seus actos são melhor entendidos através do apelo à mesma teoria da guerra justa que é invocada pelas nações na justificação das suas campanhas militares. Os terroristas interpretam as suas guerras como justas, ao mesmo tempo que culpabilizam todos aqueles que beneficiam das políticas dos governos de que discordam. Os grupos habitualmente reconhecidos como “terroristas” discordam dos governos não quanto à possibilidade de uma guerra justa ou quanto a possibilidade de se exagerar a importância da moralidade no caso da morte de pessoas inocentes. Os grupos terroristas e as instituições militares das nações concordam com o mesmo esquema da “guerra justa”, mas discordam acerca dos factos."